A IA é rápida demais até para quem cria o Claude

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Sempre falo em aulas e palestras que se alguém disser, com convicção, que sabe qual será o futuro da IA, pode desconfiar. Por isso me senti validado ao ver Daniela Amodei, presidente e cofundadora da Anthropic, falar ontem sobre tecnologia e futuro. “Um ano atrás parece uma década atrás”, comentou ela, que participou da abertura do Snowflake Summit, evento de tecnologia que vim cobrir em São Francisco, nos Estados Unidos.
Para quem não ligou os pontos ainda, Anthropic é a empresa que criou o Claude, modelo de IA mais em alta no momento. No palco do evento, Daniela conversou com o CEO da Snowflake, Sridhar Ramaswamy, e comentou o crescimento da empresa. “Fomos de startup pequena para grande, daí viramos uma empresa operando numa escala que nem imaginávamos”, disse.
Perguntada sobre como tem sido tocar uma empresa que saiu do quase nada para uma escala difícil de imaginar, ela respondeu com ironia que tudo anda muito tranquilo, relaxante, dormindo muito, e na sequência foi sincera. Disse que a Anthropic é só um microcosmo do que acontece no mundo da IA como um todo.
A empresa de 1 trilhão de dólares
Nos últimos cinco anos, a Anthropic saltou de 15 para 3500 funcionários. Atualmente, tem avaliação estimada em quase 1 trilhão de dólares — isso mesmo que você leu, TRILHÃO. “A parte mais impressionante, até para nós da Anthropic, é imaginar como as coisas vão estar daqui a um ano”, comentou ela. “É muito difícil compreender o nível de capacidade que esses modelos estão desenvolvendo a cada ano, a cada seis meses, a cada três meses.”
Quer dizer, até para quem cria inteligência artificial existe uma transformação na relação com o tempo. E achei meio reconfortante isso, porque frequentemente me sinto atrasado em relação à tecnologia, à inovação, sem condições de acompanhar a velocidade acelerada com que tudo muda o tempo todo no mundo (como diria Lulu Santos, uma ref que toda hora me vem à mente).
Vejo muita gente descrever esse sentimento, sejam alunos, entrevistados ou contatos de redes sociais, então é bom saber que nem as pessoas que supostamente estão “mais à nossa frente” escapam do FOMO high tech que assola quem está hoje no mercado de trabalho.
Mas como a gente fica nessa, então?
Bom, primeiro de tudo, um pouco aliviado. Mas acontece que reconhecer o atraso não resolve a ansiedade (quem dera!). As pessoas querem sempre saber que IA devem dominar para não “ficar para trás”, e a real é que talvez a gente se preocupe em adquirir um carro de alta potência para tarefas que daria para realizar de skate.
Ou seja, não é que você precise ser proficiente em tudo que é IA. Dependendo do grau de uso diário, a versão gratuita do ChatGPT, Gemini, Claude, vai resolver a maioria das demandas.
Talvez seja melhor pensar que tipo de rotina, repertório e curiosidade deixam a gente menos vulnerável quando a ferramenta muda. E ela vai mudar, isso é a única certeza que podemos ter sobre as IAs no momento. Além disso, é importante a gente aprender a ser resiliente MESMO. Eu sei, essa palavra virou um inferno e foi saturada, mas esse uso exagerado tem a ver com uma necessidade real: num mundo tão volátil, a gente precisa mesmo conseguir se recuperar depois dos baques e seguir em frente. Você, eu e até a Daniela Amodei.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda em 5 Minutos
