Os novos números que mostram como a população brasileira está altamente exposta a problemas nos rins

Eles seguem trabalhando em silêncio — filtrando o sangue, equilibrando o fluxo de líquidos pelo corpo, ajudando a regular a pressão, entre outras funções importantes para nos manter em pé —, mas os sinais de desgaste estão cada vez mais barulhentos. Um levantamento recente da empresa Vantive mostra como os brasileiros ainda desconhecem a doença renal e cuidam pouco dos rins.
Parte do problema começa na rotina. Dos 2.000 entrevistados, quase sete em cada dez admitem adiar exames básicos de saúde. Mais da metade não se hidrata como deveria, e 40% levam uma vida sedentária — uma combinação que pressiona diretamente o funcionamento desse órgão ao longo do tempo.
Ainda assim, a percepção de risco não acompanha esse cenário. Mais de um terço dos participantes acredita ter baixa ou muito baixa chance de desenvolver a doença, enquanto 20% dizem não saber como esse risco é calculado.
O contraste aparece quando se olha para o próprio perfil dos entrevistados: 26% têm hipertensão, um dos principais fatores associados à perda da função renal, e 55% relatam histórico familiar da condição. Soma-se a isso a obesidade, que cresce a passos largos no país. “A epidemia de doença renal crônica é, em grande medida, causada pelo aumento da obesidade e da própria expectativa de vida”, diz Samaan.
A subnotificação encontra apoio em outro dado do levantamento: apenas 8% dos entrevistados afirmam ter diagnóstico de algum problema nos rins, um número inferior ao estimado na população geral. Para especialistas, isso reforça a hipótese de que muitos casos permanecem ocultos, evoluindo sem acompanhamento.
“Cerca de 10% da população adulta já convive com algum grau de doença renal crônica, mas poucos sabem que têm o problema”, diz o nefrologista Farid Samaan, do Grupo de Planejamento da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.
Por outro lado, o atraso na busca por exames não se explica apenas por falta de tempo ou acesso. Mais de 60% dos brasileiros relatam medo de descobrir uma doença grave. “Hoje, muitas vezes, quando o paciente descobre o problema, ele já está em fase avançada”, afirma o nefrologista Pedro Túlio Rocha, da Sociedade Brasileira de Nefrologia.
Os sinais da doença renal
Esse descompasso também aparece na forma como os sintomas são percebidos. Boa parte dos entrevistados associa doença renal à dor nas costas, uma ideia um tanto equivocada. “Infecções urinárias ou cálculos renais podem, sim, causar dor lombar, mas menos de 5% dos casos de doença renal crônica têm essa origem”, esclarece Samaan.
Como a doença costuma evoluir de maneira silenciosa, os sinais mais característicos, como inchaço nas pernas, tornozelos ou ao redor dos olhos, além de alterações na urina, tendem a surgir apenas quando os rins já estão comprometidos.
O efeito desse conjunto de fatores aparece na ponta mais crítica do sistema. Em uma década, a taxa de pacientes em diálise no Brasil saltou de pouco mais de 550 para 812 por milhão de habitantes. Hoje, 173.408 pessoas dependem do tratamento no país.
Quando o assunto é cuidado, mesmo que a hidratação seja importante – e muito – o grande segredo é focar em hábitos de vida saudáveis e apostar no check-up periódico.
