‘O futuro do turismo não está em receber mais visitantes a qualquer custo’

‘O futuro do turismo não está em receber mais visitantes a qualquer custo’

Nicole Solano, CEO do Ministério do Turismo de Belize, conversou com a coluna GENTE sobre os desafios de se descortinar para o mundo um país que quer manter preservado seu vasto território coberto por matas e ruinas maias de mais de dois milênios. O país é o foco de um programa especial de turismo (disponível no canal VEJA+ no Youtube, no streaming da TV Samsung Plus, LG, TCL e Roku). Confira o bate-papo.

Quais são hoje os maiores desafios estruturais para o desenvolvimento sustentável do turismo em Belize, especialmente fora dos destinos mais conhecidos? O principal desafio é crescer preservando. Belize é um destino cuja força está na integridade de seus ecossistemas e na autenticidade de suas comunidades, portanto a expansão do turismo precisa ser conduzida com equilíbrio. Nosso foco é ampliar a distribuição dos benefícios da atividade para diferentes regiões do país sem comprometer áreas sensíveis nem descaracterizar identidades locais. Por isso, Belize não privilegia um crescimento acelerado a qualquer custo. Mas sim, um modelo de desenvolvimento baseado em experiências responsáveis, valorização de áreas protegidas, operadores licenciados e conexão genuína com a cultura local.

Como o país equilibra a preservação ambiental (sobretudo dos recifes de coral e áreas naturais) com o crescimento da atividade turística? Preservação e turismo não são agendas separadas – são parte da mesma estratégia. Essa visão se traduz em medidas concretas, como o compromisso de preservar 30% do território oceânico, a proteção de áreas marinhas dentro do sistema do recife e a proibição total de plásticos de uso único.

A dependência do turismo internacional torna Belize vulnerável a crises globais? A resposta a isso tem sido construir resiliência por meio de diversificação, posicionamento de valor e fortalecimento institucional. Belize não depende de um único produto turístico. O país reúne, em um território compacto, turismo marinho, aventura, natureza, patrimônio maia, cultura viva, gastronomia e bem-estar. Essa diversidade amplia nossa capacidade de dialogar com diferentes perfis de viajantes e reduz a exposição a oscilações concentradas em um único segmento.

De que forma o turismo comunitário é integrado às políticas nacionais, garantindo geração de renda sem descaracterizar culturas locais? Nosso princípio é simples: a cultura local não deve se adaptar ao turismo; o turismo é que deve se adaptar ao território, às comunidades e às suas formas de expressão. O destino valoriza, por exemplo, vivências ligadas à cultura Garifuna, reconhecida internacionalmente, além de incentivar o visitante a priorizar empresas administradas por comunidades e operadores responsáveis. Isso ajuda a ampliar a geração de renda local ao mesmo tempo em que preserva a integridade cultural

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A infraestrutura de transporte e conectividade interna ainda é um gargalo. Que investimentos estão previstos para melhorar o acesso a polos turísticos? Mais do que um destino de deslocamentos massificados, Belize se posiciona como um país em que a jornada faz parte da experiência. Em muitos casos, o acesso a determinadas regiões preservadas é justamente um reflexo do modelo de turismo que prioriza baixa densidade e maior conexão com a natureza.

Do ponto de vista institucional, seguimos promovendo acessibilidade e integração dentro de uma lógica compatível com o nosso compromisso de sustentabilidade.

Como Belize enfrenta a concorrência de outros destinos caribenhos mais consolidados, tanto em preço quanto em visibilidade internacional? Belize compete por singularidade, não por semelhança. Nosso diferencial é oferecer uma combinação rara entre Caribe e América Central: o maior recife vivo do Hemisfério Norte, natureza exuberante, forte herança maia, cultura viva e um perfil altamente experiencial.

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A qualificação da mão de obra local é suficiente para atender às demandas do turismo contemporâneo? A qualificação da cadeia turística é uma prioridade contínua. Em um destino como Belize, onde a experiência do visitante está profundamente ligada à natureza, à cultura e ao contato humano, investir em capacitação significa investir diretamente na qualidade do produto turístico. O Belize Tourism Board mantém iniciativas de treinamento e educação do destino, além de programas voltados ao trade e à padronização de conhecimento. Também valorizamos fortemente a atuação de guias licenciados e a adoção de boas práticas em experiências de natureza e cultura, que são centrais para o posicionamento do país.

Quais lições ficaram da pandemia para a gestão do turismo, especialmente em relação à resiliência do setor? Durante a retomada, Belize adotou uma reabertura gradual e estabeleceu protocolos claros em diferentes segmentos da cadeia turística. Esse processo foi importante não apenas como resposta sanitária, mas como um exercício de fortalecimento institucional. Ele consolidou uma cultura de padrões mais altos, maior previsibilidade operacional e mais alinhamento entre segurança, experiência do visitante e reputação internacional.

Qual é a visão de longo prazo do governo para o turismo em Belize: crescimento acelerado ou desenvolvimento sustentável? A visão de longo prazo é inequívoca: desenvolvimento controlado, qualificado e sustentável. Belize entende que seu maior ativo turístico está na preservação de seus ecossistemas, de seu recife, de suas áreas protegidas e de sua diversidade cultural. Acreditamos que o futuro do turismo não está em receber mais visitantes a qualquer custo, mas em receber melhor: com mais responsabilidade, mais autenticidade e mais respeito ao patrimônio natural e cultural que faz do país um destino singular. Em Belize, sustentabilidade não é um discurso paralelo ao turismo; é a base da estratégia do destino.

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