7 curiosidades sobre o tucunaré que parecem ficção científica
O tucunaré protege os filhotes em casal, pode reagir contra invasores mesmo quando a alimentação não é sua prioridade, caça principalmente durante o dia e, em determinadas populações, chega a praticar canibalismo. Os comportamentos ajudam a explicar por que o peixe desperta interesse de pesquisadores e se tornou um dos principais alvos da pesca esportiva em Goiás, especialmente no Lago de Serra da Mesa.
Em entrevista gravada para esta reportagem, a bióloga Fernanda Flores detalhou características de alimentação, reprodução, territorialidade e cuidado parental que fazem o animal ir muito além da força conhecida por quem já o encontrou na ponta da linha. O Mais Goiás reuniu 7 curiosidades sobre o tucunaré e confrontou as explicações da especialista com pesquisas científicas sobre espécies do gênero Cichla.
A relação do peixe com Goiás também guarda uma particularidade que muda conforme a região do estado. O tucunaré-azul, Cichla piquiti, ocorre naturalmente na bacia Tocantins-Araguaia, onde está Serra da Mesa, mas aparece como espécie introduzida em reservatórios da bacia do Paraná, como Itumbiara.
A Universidade Federal de Goiás mantém uma tese dedicada à pesca esportiva do tucunaré-azul em Serra da Mesa, enquanto a Goiás Turismo classifica o lago como um dos principais destinos para a modalidade. O reservatório também aparece entre os destinos de pesca esportiva destacados pelo Mais Goiás.
1. Pai e mãe viram uma tropa de proteção dos filhotes
O cuidado dos filhotes está entre as características que mais chamam atenção no comportamento do tucunaré. Segundo Fernanda Flores, macho e fêmea participam da proteção da prole, permanecendo próximos da área de reprodução e reagindo quando percebem ameaças aos descendentes.
Estudos sobre espécies do gênero Cichla confirmam cuidado biparental, territorialidade, construção e defesa de ninhos, além da proteção de ovos e jovens. Para o peixe, portanto, reproduzir não termina com a desova: existe um período posterior no qual os adultos investem tempo e energia na sobrevivência da nova geração.
Esse comportamento também ajuda a entender parte da fama de “brigador” atribuída ao tucunaré pelos pescadores. Um adulto que permanece próximo aos filhotes não está apenas procurando alimento, mas defendendo uma área considerada importante para a reprodução. A aproximação de outro peixe ou de um objeto pode desencadear uma resposta territorial, especialmente durante esse período. É uma diferença importante porque mostra que a agressividade observada na pescaria não pode ser explicada apenas pelo apetite do animal.
2. Algumas espécies podem passar até dois meses em jejum
O investimento na reprodução pode chegar a níveis que parecem contraditórios para um predador conhecido pelo apetite. Pesquisa sobre Cichla temensis, o tucunaré-açu, registra que os peixes formam casais e podem permanecer em jejum por até dois meses durante o ciclo reprodutivo.
Nesse período entram atividades como reprodução, preparação da área, construção do ninho e cuidado parental, que exigem energia do animal. O dado é específico para Cichla temensis e não deve ser automaticamente atribuído ao tucunaré-azul encontrado em Serra da Mesa.
A curiosidade também ajuda a compreender por que alimentação e agressividade precisam ser tratadas como comportamentos distintos. Mesmo durante uma fase em que a ingestão de alimento cai, o peixe continua envolvido na proteção do território e dos descendentes. Isso significa que a ausência de fome não transforma necessariamente o animal em passivo diante de um intruso. No mundo do tucunaré, defender pode ser tão determinante quanto comer.
3. Ele pode atacar mesmo quando comer não é a prioridade
O tucunaré é predominantemente piscívoro, ou seja, outros peixes ocupam posição importante em sua dieta, mas nem toda reação agressiva pode ser reduzida à busca por comida. Fernanda Flores explica que o comportamento territorial se intensifica em situações relacionadas à reprodução e à proteção dos filhotes, quando o animal reage à presença de invasores. A literatura científica sobre Cichla registra justamente territorialidade e cuidado parental associados ao ciclo reprodutivo. Por isso, é mais correto dizer que uma investida pode ter motivação alimentar ou defensiva, dependendo do momento e da situação.
É essa combinação que ajuda a explicar por que iscas artificiais conseguem provocar respostas tão intensas. Uma isca em movimento pode representar visualmente uma presa, mas também atravessar uma área ocupada e defendida pelo peixe. Não é possível saber a motivação de cada ataque apenas observando a fisgada, e a ciência não autoriza transformar territorialidade em explicação para todas as capturas. O que os estudos mostram é que o tucunaré possui um repertório comportamental mais amplo do que simplesmente perseguir alimento.
4. O tucunaré é um caçador visual e diurno
Os olhos têm papel central na maneira como o tucunaré encontra suas presas. Estudos descrevem espécies de Cichla como predadores diurnos orientados pela visão, característica que ajuda a entender a reação rápida a movimentos dentro da água. Uma pesquisa sobre alimentação do gênero aponta ainda a necessidade de boa visibilidade para esse tipo de estratégia predatória. Para quem utiliza iscas artificiais, a biologia do peixe ajuda a explicar por que movimento, aparência e apresentação da isca têm tanta importância.
A característica encontra em Serra da Mesa um dos cenários mais conhecidos da pesca goiana. A Goiás Turismo informa que o reservatório possui 1.784 quilômetros quadrados e 54,4 bilhões de metros cúbicos de água e o classifica entre os melhores locais para pesca esportiva do tucunaré.
O órgão destaca ainda a preferência dos pescadores que utilizam iscas artificiais, justamente uma modalidade que explora a resposta do peixe a estímulos visuais. Goiás também aparece em levantamento publicado pelo Mais Goiás entre os estados procurados para pesca esportiva por causa de destinos como Serra da Mesa e Rio Araguaia. Veja o ranking dos estados para pesca esportiva.
5. O predador também pode virar canibal
O cardápio do tucunaré pode incluir um animal inesperadamente próximo: outro tucunaré. Um estudo realizado com espécies de Cichla introduzidas no reservatório de Volta Grande, entre Minas Gerais e São Paulo, identificou o canibalismo como comportamento alimentar predominante na população analisada.
Os pesquisadores discutem fatores como abundância de tucunarés, competição, disponibilidade de presas e condições do ambiente para explicar o resultado. Isso comprova que o gênero pode apresentar canibalismo, mas não significa que todos os tucunarés, em todos os reservatórios, tenham indivíduos da própria espécie como principal alimento.
Fernanda Flores também cita o canibalismo entre os comportamentos que surpreendem quem conhece o peixe apenas pela pesca. Do ponto de vista ecológico, a informação precisa ser interpretada dentro de cada população, porque dieta e disponibilidade de alimento mudam conforme o ambiente.
Um resultado observado em Volta Grande, por exemplo, não pode ser simplesmente transportado para Serra da Mesa como se os dois reservatórios fossem iguais. A curiosidade continua relevante justamente porque mostra a plasticidade alimentar de um predador capaz de explorar diferentes recursos.
6. Na reprodução, algumas espécies praticamente “trocam de roupa”
Nem todo tucunaré mantém exatamente a mesma aparência durante a vida adulta. Um estudo com Cichla temensis identificou relação entre os padrões de coloração do peixe e sua condição reprodutiva, mostrando que variações antes tratadas como formas distintas estavam ligadas ao ciclo sexual.
Os pesquisadores encontraram correlação entre a aparência externa e o desenvolvimento das gônadas, indicando uma mudança cíclica associada à reprodução. É como se, em determinados momentos, o animal mudasse de “roupa”, embora o fenômeno documentado nesse estudo seja específico de Cichla temensis.
A ressalva faz diferença em uma reportagem sobre Goiás porque o tucunaré-azul de Serra da Mesa pertence a outra espécie, Cichla piquiti. Não há base para afirmar que ele reproduz exatamente o mesmo padrão descrito para o tucunaré-açu apenas porque os dois pertencem ao mesmo gênero.
A curiosidade revela, no entanto, como a reprodução pode produzir alterações visíveis até na aparência de algumas espécies de tucunaré. A mudança mostra que cor e padrão corporal também podem carregar informações biológicas sobre a fase vivida pelo animal.
7. Em Goiás, o tucunaré-azul pode ser nativo em uma bacia e introduzido em outra
Poucas curiosidades sobre o tucunaré explicam tão bem a diversidade hidrográfica de Goiás. O Cichla piquiti é endêmico da bacia Tocantins-Araguaia, onde está Serra da Mesa, mas foi introduzido em sistemas pertencentes à bacia do Paraná, incluindo o rio Paranaíba.
Assim, a mesma espécie encontrada naturalmente em uma parte de Goiás aparece fora de sua distribuição original em outra região do estado. Essa diferença é fundamental porque um predador nativo e um predador introduzido não podem ser analisados da mesma maneira do ponto de vista ecológico.
O reservatório de Itumbiara acrescenta outra surpresa a essa história. Pesquisadores encontraram atividade reprodutiva de Cichla piquiti durante quase todo o ano, além de desovas múltiplas, comportamento associado à capacidade de adaptação da espécie ao ambiente onde foi introduzida.
Essa plasticidade ajuda a explicar como o tucunaré-azul consegue estabelecer populações fora de sua área original, mas também aumenta a necessidade de acompanhamento dos efeitos sobre os peixes nativos. A Goiás Turismo aponta Itumbiara e outros municípios dos Lagos do Paranaíba como destinos de pesca esportiva, mostrando como turismo e questões ecológicas podem coexistir no mesmo reservatório.
Um peixe que vai além da força na linha
As 7 curiosidades ajudam a explicar por que o tucunaré ocupa um espaço que ultrapassa a pesca esportiva. O comportamento envolve proteção parental, territorialidade, estratégia visual de caça, adaptações reprodutivas e relações alimentares que podem chegar ao canibalismo.
Em Goiás, a presença natural do tucunaré-azul em Serra da Mesa e sua introdução em outros sistemas transformam o estado em cenário para diferentes perguntas científicas sobre a mesma espécie. Para o pescador, a história começa quando o peixe ataca a isca; para pesquisadores, boa parte dela acontece muito antes da primeira fisgada.
A pesca acrescenta ainda a discussão sobre manejo e conservação dessas populações. Em Serra da Mesa, a UFG possui pesquisa específica sobre os efeitos da pesca esportiva no tucunaré-azul, enquanto Goiás mantém regras ambientais para captura, transporte e períodos de reprodução dos peixes.
O Mais Goiás já registrou inclusive apreensões de tucunarés abaixo do tamanho permitido na região de Serra da Mesa, exemplo de como fiscalização e turismo dividem o mesmo território. Quanto mais se conhece o comportamento do tucunaré, mais evidente fica que preservar o peixe e compreender o ecossistema são partes da mesma história.
