O Maquiavel de Trump: Stephen Miller prega uso da força como com Maduro

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Donald Trump quer fazer uma coisa e chama Stephen Miller para tomar todas as providências cabíveis – e até incabíveis, como defender o uso da força para arrebatar a Groenlândia por motivos geoestratégicos e dizer que “estamos governando a Venezuela”. Segundo seu xará Stephen Bannon, o cargo de vice-chefe de gabinete descreve mal suas funções, equivalentes na prática às de um primeiro-ministro. Como tal, comanda as expulsões de imigrantes clandestinos e “grita no telefone” com alguns dos dirigentes dos órgãos mais importantes do governo se não fizeram o que Trump encomendou – ou, frequentemente, o que ele interpretou como pensamento do presidente.
Miller, obviamente, é odiado – e não apenas pela oposição democrata. “Grita com todo mundo, ninguém escapa”, disse um desses inimigos internos à MSN. “Se você disser uma coisa idiota, ele vai mostrar isso na sua cara. Espera-se que tenhamos um determinado nível de desempenho e não existem desculpas para quem não corresponda às expectativas”.
É chamado de nazista – curiosamente, considerando-se que é judeu – e de Lorde Voldemort, entre as coisas publicáveis. Um tio escreveu um artigo dizendo que seus antepassados não teriam conseguido fugir da Europa Oriental durante as perseguições russas e o nazismo se a política migratória do sobrinho estivesse em vigor. O sobrinho pouco ligou.
Inimigos na imprensa publicaram comentários de leitores – um recurso sórdido – insinuando que Elon Musk tinha alguma coisa a ver com a quarta gravidez em cinco anos de sua mulher, Katie Miller. Por esse método, é possível “branquear” qualquer coisa. Por exemplo: o presidente tal é um marido traído, dizem nos comentários. Pronto, virou informação legítima.
‘SOMOS UMA SUPERPOTÊNCIA\’
Só maus jornalistas fazem isso, mas contra Miller vale tudo. Katie trabalhava na comunicação do governo Trump, saiu para um rápido período com Elon Musk e agora tem seu próprio empreendimento nessa área. Quem apostava que a relação com Musk comprometeria o casal Miller se deu mal. O homem mais rico do mundo recompôs os laços rompidos com Trump e já apareceu num jantar em Mar-a-Lago.
Stephen Miller foi deslocado para defender o uso da força na Venezuela nos principais programas de televisão e o fez com argumentos maquiavélicos, no sentido da defesa pragmática da mão de ferro. A Jake Tapper, da CNN, declarou, incendiariamente: “Vivemos num mundo, Jake, que é governado pela fortaleza, pela força, que é governado pelo poder. São as leis inquebrantáveis do mundo desde o início dos tempos”.
É, obviamente, verdade. Mas líderes fortes como Vladimir Putin e Xi Jinping desenvolvem múltiplos argumentos políticos e históricos para justificar as injustificáveis intervenções na Ucrânia e em Taiwan. Os próprios Estados Unidos cultivaram ao longo de mais de dois séculos a imagem de superpotência benigna, que só entrava numa briga para salvar a humanidade de inimigos terríveis como a Alemanha nazista ou o Japão imperialista. Ou pôr ordem no seu quintal, uma fase que parecia superada há muito tempo.
Stephen Miller prega que os detentores da força assumam seu poder, sem as vestes transparentes das homenagens que o vício presta à virtude.
“Ninguém vai lutar contra os militares dos Estados Unidos por causa da Groenlândia”, disparou. “Nós somos uma superpotência e, com o presidente Trump, vamos nos conduzir como uma superpotência”.
A DIFÍCIL NOVA ORDEM DAS COISAS
A intervenção na Venezuela marcou, todos já perceberam, uma mudança na política externa americana, com uma reorientação da ordem mundial vigente de consequências ainda desconhecidas, e Stephen Miller é seu principal defensor.
Os riscos envolvidos são, obviamente tremendos. Só a interceptação de um petroleiro venezuelano que passou a usar bandeira russa já seria, em si, explosiva. Imaginem no contexto de um fiel aliado como Nicolás Maduro abduzido e levado para Washington. Dizia o eterno Maquiavel: “Não existe nada mais difícil de executar, nem de sucesso mais duvidoso, nem mais perigoso de lidar, do que iniciar uma nova ordem das coisas”.
Na sua visão, Stephen Miller está salvando a civilização ocidental da decadência e lutando pelos princípios que remetem a “Atenas, Roma, Filadélfia e Monticello”, sendo esta última o nome da propriedade rural de Thomas Jefferson, um dos pais da pátria americana – que, por sinal, não era um adversário do uso da força e, numa de suas frases mais famosas, disse que “a árvore da liberdade precisa ser regada de tempo em tempo com o sangue dos patriotas”.
Até agora, quem verteu sangue foram os 32 seguranças cubanos de Nicolás Maduro, cuja existência ele cinicamente negava. Ao todo, calcula-se que morreram oitenta pessoas na operação para capturar o déspota e sua esposa. O melhor seria não morrer ninguém, mas é um número extraordinariamente baixo, levando-se em conta que, só de contingente no ar, envolveu 157 aeronaves dentro do poroso espaço aéreo da Venezuela.
PÉ NO ACELERADOR
Será possível “dirigir” a Venezuela à distância, num método absolutamente sem precedentes, sem as tropas do chão que uma mudança clássica de regime exigiria? Até onde vai a aquiescência de uma escoladíssima chavista como a presidente interina Delcy Rodríguez? A PDVA, por exemplo, já começou a colaborar e negociar a venda de petróleo. Com o dinheiro, só poderão ser comprados equipamentos agrícolas, farmacêuticos e elétricos fabricados nos Estados Unidos.
Estaria a CIA certa ao defender “fazer negócios” com Delcy, escanteando a oposicionista María Corina Machado, cuja ascensão implicaria numa guinada violenta no regime, enquanto, nas palavras de Marco Rubio, os Estados Unidos estão lidando com “uma realidade imediata”? E se houver uma onda de repressão aos venezuelanos que esperavam um desmanche do regime?
São questões formidavelmente em aberto. Até o secretário de Estado Marco Rubio, um dos principais articuladores da operação captura, evitou dizer que os Estados Unidos estão no comando da Venezuela, mas apresentou um plano em três fases como se estivessem: estabilização, recuperação econômica e transição.
Miller, ao contrário, mete o pé no acelerador: “Nós estabelecemos os termos e condições. Temos um embargo total sobre seu petróleo e sua capacidade de fazer comércio. Se quiserem fazer comércio, precisam da nossa permissão. Portanto, os Estados Unidos estão no comando. Os Estados Unidos estão dirigindo o país”.
PLANO B ARMADO
Até o próprio Donald Trump já brincou com a força do dogmatismo de Miller e da linguagem sem considerações diplomáticas que usa. Antes da operação para a captura de Maduro, o presidente fez um jogo de palavras: “Eu gostaria que ele viesse e explicasse seus verdadeiros sentimentos – talvez não seus sentimentos mais verdadeiros”.
Outra de Maquiavel: “O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens à sua volta”.
Stephen Miller será julgado não apenas pelo que diz, mas pelo que acontece na Venezuela. Esta parte continua totalmente em aberto. Caso dê errado, Miller é um dos nomes mais descartáveis: não tem votos nem muitos aliados dentro do governo, além de estar obscurecendo a chefe, Susan Wiles. Muito provavelmente, sabe disso muito bem. Mas também provavelmente já tem o Plano B todo armado.
Devido a constantes ameaças, inclusive fisicamente diretas, contra ele e a família, está morando numa casa dentro de uma base militar. Lembra Maduro até sábado passado?
