O saldo da reunião entre Zelensky e enviados dos EUA para encerrar guerra na Ucrânia

Steve Witkoff e Jared Kushner, os dois enviados do presidente americano, Donald Trump, para negociar o fim da guerra entre Ucrânia e Rússia viajaram a Kiev no domingo 6 após mais de três horas de conversas com o presidente russo, Vladimir Putin, em Moscou, no dia anterior.
A visita, por si só, foi importante. Desde o início das tratativas mediadas pela dupla dinâmica, em fevereiro de 2025, a maioria das reuniões ocorreu no Kremlin (Witkoff admitiu que já havia visitado Moscou oito vezes). Além disso, Witkoff descreveu as conversas em Kiev como “muito substanciais”, enquanto Kushner afirmou que a reunião do dia anterior com Putin foi “construtiva e oportuna”.
No entanto, após várias horas de conversas com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a relevância do gesto ficou no plano do simbólico: não houve nenhum avanço concreto nas discussões. Praticamente nenhum detalhe sobre o conteúdo das discussões veio à tona. Os posicionamentos de Kiev e Moscou continuam iguais; a proposta dos Estados Unidos que Trump tem promovido para encerrar a guerra segue sem atualização.
O que foi discutido?
O próprio presidente ucraniano adotou um tom cauteloso para falar do futuro. “Contamos com o apoio de nossos parceiros europeus caso a guerra se prolongue pelo inverno, e é isso que parece que vai acontecer no momento”, disse Zelensky.
O principal ponto das discussões de domingo, aliás, foi como ajudar a Ucrânia a atravessar a estação que as forças da Rússia costumam usar como arma. O líder ucraniano reiterou seu pedido por mais mísseis interceptadores Patriot, fabricados nos Estados Unidos. As conversas também giraram em torno de um “pacote” para o inverno relacionado à defesa aérea e à infraestrutura energética. No longo prazo, Zelenky pede “garantias de segurança” e assistência para a reconstrução do país.
“Nunca se sabe com qualquer acordo. Nada está feito até que esteja realmente concluído”, admitiu Kushner durante uma coletiva de imprensa ao final do domingo. “Pode acontecer rapidamente ou lentamente, mas não vai acontecer se não houver essas reuniões e esses diálogos.”
O genro do presidente americano também insistiu que há movimentações intensas “nos bastidores” para criar as condições para um acordo. “É um problema muito, muito difícil, mas vamos tentar”, acrescentou ele, em declarações que apenas reforçaram a sensação de estagnação nas negociações.
Ponto alto
Ucrânia e Rússia concordaram com uma pausa nos ataques às respectivas capitais durante as negociações, proporcionando breve, mas bem-vindo alívio aos moradores de Kiev, apesar dos combates que prosseguiaram em outras áreas.
A negociação contou, pela primeira vez, com a presença inesperada de três representantes europeus: Emmanuel Bonne, assessor diplomático do presidente francês, Emmanuel Macron; Günter Sautter, da Alemanha; e Jonathan Powell, do Reino Unido.
A participação do trio foi significativa, visto que a Europa vem sendo deixada de lado em rodadas anteriores de negociações. A maioria das lideranças do continente sustenta ser vital que as tratativas os incluam por dizer respeito ao “futuro da segurança europeia”, especialmente em tempos de tensões elevadas com Moscou.
Também é importante que tenha havido uma retomada do diálogo. O processo diplomático liderado por Washington foi suspenso após a eclosão da guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã, em 28 de fevereiro, evento que absorveu a atenção do governo Trump. Agora, Zelensky ao menos já anunciou que está planejada uma nova reunião nos mesmos moldes (com autoridades da Ucrânia, Estados Unidos e representantes europeus). Mas não há data ou local definido.
Pontos de atrito
Nas questões mais espinhosas, as posições continuam igualmente distantes. Putin insiste na necessidade de eliminar todas as “causas profundas do conflito” — expressão que costuma usar para reiterar as exigências maximalistas mantidas desde a invasão, em fevereiro de 2022. O maior impasse gira em torno da região de Donetsk, no leste da Ucrânia. Moscou reivindica toda a área, mas Zelensky rejeita abrir mão dos territórios que ainda controla.
Diante das divergências, Witkoff e Kushner tentaram promover uma abordagem na qual ambos os lados pudessem ver vantagens em chegar a um acordo. Questionado na coletiva de imprensa se os Estados Unidos poderiam aumentar a pressão sobre Moscou caso as negociações travassem, Kushner falou, em vez disso, em uma solução de “ganha-ganha”.
“A guerra é um jogo de soma negativa — todos perdem com a guerra —, ao passo que os negócios e a paz representam uma soma positiva”, defendeu.
Pouco antes, ele também havia falado com certa cautela sobre as metas de Putin. O presidente russo tem “certos objetivos que quer alcançar”, mas também, segundo Kushner, “aspirações diferentes para o seu país”.
