A ciência explica o aegyo: por que se usa voz fofa e infantil na Coreia

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Quem acompanha o K-pop conhece bem a cena: diante dos fãs ou das câmeras, idols fazem corações com as mãos, mudam a expressão e adotam uma fala quase infantil. O gesto tem nome: aegyo. Presente também em cenas românticas de K-dramas, ele é usado por adultos para parecerem mais fofos, conquistar a simpatia de alguém ou demonstrar afeto. Agora, uma pesquisa mediu o que acontece com a voz durante essa performance.
O estudo, publicado em 18 de agosto na revista científica JASA Express Letters, foi conduzido por Ji-eun Kim, da Universidade Feminina Duksung, na Coreia do Sul, e Volker Dellwo, da Universidade de Zurique, na Suíça. Os pesquisadores analisaram 12 moradores de Seul (seis mulheres e seis homens, com idades entre 25 e 31 anos) que leram o mesmo roteiro com e sem aegyo.
A equipe comparou as frequências dos formantes, faixas de ressonância produzidas a partir dos movimentos da língua, dos lábios e da mandíbula. A atenção principal ficou no primeiro formante, conhecido como F1, relacionado à altura das vogais e às características do trato vocal.
Os resultados mostraram um aumento sistemático de F1 na fala com aegyo. Houve também o deslocamento de algumas vogais anteriores, o que ampliou o espaço vocálico. Em termos menos técnicos, a interpretação dos autores é que os participantes mudaram a ressonância da voz para se aproximar de características acústicas associadas a um trato vocal mais curto. E, por isso, a uma voz mais jovem.
“Um trato vocal mais curto produz naturalmente ressonâncias mais altas e, portanto, frequências formantes mais elevadas”, explicou Kim. Segundo a pesquisadora, essa é uma das principais razões pelas quais a voz de uma criança soa diferente da de um adulto.
Dellwo compara o mecanismo a uma estratégia conhecida no mundo animal, mas em sentido contrário. Algumas espécies abaixam a laringe para dar a impressão de um trato vocal mais longo e de um corpo maior, o que pode fazê-las parecer mais ameaçadoras. No aegyo, ocorre o efeito oposto. “Em vez de parecer maior, quem usa o aegyo faz a própria voz soar menor e mais jovem”, afirmou.
O trabalho não permite determinar quais movimentos físicos produzem a mudança. Os autores consideram a possibilidade de elevação da laringe, ajustes na posição da língua e dos lábios ou uma combinação desses fatores. Novos estudos serão necessários para observar diretamente como os adultos modificam o trato vocal ao falar dessa maneira.
Também falta responder por que o aegyo funciona nas relações sociais. Uma voz que soe menor e mais infantil pode despertar uma reação de proteção e reforçar vínculos, mas essa hipótese não foi testada no experimento. Outra possibilidade é que as frequências mais altas façam com que a pessoa seja lembrada com mais facilidade.
“Soar fofo pode não apenas tornar alguém mais fácil de abordar, mas também ajudar a fixar sua identidade na mente dos outros”, disse Dellwo. Se a hipótese se confirmar, o aegyo não seria apenas uma demonstração de carinho ou uma brincadeira entre idols e fãs: seria também uma maneira de deixar uma impressão logo no início de uma relação.
