Fundos de ações e multimercados rendem menos que o CDI: é hora de resgatar?

Os fundos de ações e multimercados ficaram para trás do CDI nos primeiros sete meses de 2026, mas isso não significa necessariamente que seja hora de resgatar o dinheiro. Segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), os fundos de ações tiveram rentabilidade média de 4,06% entre janeiro e julho, enquanto os multimercados acumularam 4,42%. No mesmo período, o CDI avançou 8,14%.
A diferença chama atenção principalmente em um cenário de juros elevados, no qual investimentos de renda fixa conseguem entregar retornos expressivos com menor exposição à volatilidade. Para quem acompanha a carteira e vê um fundo render pouco mais da metade do CDI, a dúvida é natural: manter o investimento ou procurar alternativas?
A resposta, porém, não está apenas no desempenho recente. Fundos de ações e multimercados assumem diferentes níveis de risco e estratégias e, por isso, podem atravessar períodos de maior volatilidade. O que importa é entender se o produto continua cumprindo o papel para o qual foi escolhido e se sua estratégia permanece adequada ao momento do investidor. “Ao sair do investimento em um momento de estresse sem analisar esses fatores, o investidor corre o risco de transformar uma oscilação que poderia ser temporária em perda definitiva”, alerta Soraia Barros, gerente-executiva de Fundos de Investimento da Anbima.
Além disso, comparar apenas a rentabilidade média de uma categoria pode esconder diferenças importantes entre os fundos. Entre os multimercados, por exemplo, aqueles que buscam oportunidades em posições ligadas a juros e câmbio renderam 7,66% entre janeiro e julho. Já os fundos com foco em investimentos no exterior tiveram retorno de 3,01%, menos da metade.
Antes de resgatar, olhe além do retorno
O primeiro passo é lembrar por que o fundo foi incluído na carteira. Se o objetivo era construir patrimônio no longo prazo, uma fase de desempenho mais fraco pode estar dentro do comportamento esperado para aquele investimento.
Um fundo de ações, por exemplo, pode passar por períodos de queda acompanhando o mercado acionário sem que isso represente necessariamente uma falha da estratégia. O mesmo vale para multimercados, que podem assumir posições em diferentes classes de ativos justamente para buscar retornos em cenários variados. “Se ao aplicar em um fundo de ações, por exemplo, o objetivo do investidor era capturar o potencial de crescimento de empresas listadas em bolsa no longo prazo, pode não fazer sentido resgatar diante de um período de queda. A economia é cíclica e os mercados passam por momentos de maior e menor otimismo”, explica Soraia.
O segundo ponto é verificar se o investimento ainda faz sentido para a vida financeira atual. Objetivos mudam e, com eles, pode mudar também a carteira. Quem aplicou pensando em aposentadoria daqui a 20 anos pode ter outra estratégia quando estiver a poucos anos de utilizar o dinheiro.
A proximidade de uma compra de imóvel, a chegada de um filho ou a aposentadoria, por exemplo, podem reduzir o prazo disponível para recuperar eventuais perdas e tornar necessária uma exposição menor a ativos de risco. “O melhor investimento não é necessariamente aquele com maior potencial de retorno, mas aquele que o investidor consegue manter com tranquilidade ao longo do tempo. Quando a realidade muda, a carteira também pode precisar mudar”, afirma Soraia.
Outro fator é observar como o fundo se comportou em diferentes ciclos de mercado. Um resultado ruim em determinado período pode ter relação com as condições gerais e não necessariamente com a qualidade da gestão. Também é importante comparar o desempenho com o benchmark do próprio fundo. Um produto pode ter ficado abaixo do CDI ou de outro índice conhecido, mas ainda assim ter apresentado resultado compatível com sua estratégia e com o cenário enfrentado pelo mercado.
No fim, a decisão de resgatar não deveria partir apenas da comparação entre 4,06% ou 4,42% dos fundos e os 8,14% do CDI. O investidor precisa considerar prazo, objetivo, risco, estratégia e qualidade da gestão. Em alguns casos, o retorno abaixo do CDI pode ser um sinal para rever a carteira; em outros, pode representar apenas uma fase ruim de um investimento pensado para atravessar diferentes ciclos econômicos.
