Joanna Maranhão e Daiane dos Santos cobram fim do silêncio sobre abusos no esporte

Ler Resumo
A ex-nadadora olímpica Joanna Maranhão defendeu nesta quinta-feira, 6, que o combate a abusos e violações dos direitos humanos no esporte passa, necessariamente, pelo rompimento da cultura do silêncio. A declaração foi feita ao lado da ex-ginasta Daiane dos Santos durante o painel de abertura da terceira edição do Fórum Esporte Seguro, promovido pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB), no Hotel Hilton Copacabana, no Rio de Janeiro.
Com o tema “O Atleta no Centro do Esporte Seguro”, o primeiro debate do evento reuniu atletas e dirigentes para discutir formas de tornar o ambiente esportivo mais seguro e acolhedor. Ao longo do dia, o fórum também promove painéis sobre governança, papel dos treinadores e atuação dos profissionais de saúde na prevenção da violência e na promoção do bem-estar dos atletas.
Uma das principais vozes da defesa dos direitos dos atletas no país, Joanna afirmou que enfrentar episódios de violência não enfraquece a imagem do esporte, mas contribui para sua evolução.
“Eu me recuso a normalizar o abuso. Não acredito que falar sobre isso manche a reputação do esporte; pelo contrário, eu o amo tanto que quero que ele seja melhor do que isso”, afirmou ela, acrescentando que “o silêncio não é mais uma opção”.
Ao comentar os desafios enfrentados por vítimas que decidem denunciar abusos, Joanna falou sobre sua própria história. A ex-nadadora denunciou, aos 21 anos, ter sofrido abuso sexual quando tinha 9 anos de idade, cometido por seu então treinador.
“O preço de falar é muito alto. Enquanto eu treinava para os meus últimos Jogos Olímpicos, eu precisava me defender de processos movidos pelo meu abusador. Precisamos de sistemas que realmente protejam quem denuncia”, instou.
Já ao abordar o papel das entidades esportivas, Joanna avaliou que ainda há uma cultura predominantemente reativa diante dos casos de violência.
“As organizações esportivas costumam reagir aos problemas, mas ainda falham em preveni-los e em oferecer suporte contínuo após as ondas de violência passarem”, ela disse.
Questionada por VEJA sobre a participação de atletas acusados de abuso sexual em grandes competições internacionais, como ocorreu recentemente na Copa do Mundo, Joanna defendeu que o desempenho esportivo não pode servir para relativizar acusações de violência: “Não podemos celebrar atletas apenas pelo que fazem em quadra, ignorando violações cometidas fora dela”, afirmou.
III Fórum Esporte Seguro
Na abertura do evento, o presidente do COB, Marco Antônio La Porta, destacou que a criação de ambientes protegidos para os atletas é uma prioridade da entidade e afirmou que o crescimento do fórum reflete a consolidação do tema dentro do Movimento Olímpico Brasileiro.
A primeira mesa do III Forum Esporte Seguro também contou com a participação da campeã mundial da ginástica artística Daiane dos Santos, que defendeu o protagonismo dos atletas na construção de ambientes seguros e afirmou que mudanças estruturais exigem enfrentar problemas historicamente ignorados.
“Não tem como curar a ferida sem mexer no machucado. A voz do atleta precisa ecoar para defender o ambiente seguro que lhe pertence”, destacou a ex-atleta.
Já a presidente da Comissão de Atletas do COB, Fernanda Nunes, destacou que um dos principais obstáculos para o enfrentamento da violência continua sendo o receio de sofrer represálias dentro do próprio ambiente esportivo.
“O medo da retaliação é real. O atleta quer continuar no ambiente e teme ficar marcado como alguém que ‘reclama’”, resumiu Nunes.
