Da sala de cirurgia ao Congresso: quem é Zacharias Calil

Da sala de cirurgia ao Congresso: quem é Zacharias Calil

A fama como cirurgião pediátrico especializado na separação de gêmeos siameses precede a do político Zacharias Calil Hamu. O número de casos que ele acompanhou chega, em 2026, a pelo menos 47 e a quantidade de procedimentos cirúrgicos que ele conduziu pode variar de 22 a 27, a depender do critério adotado pelas diferentes fontes.

Zacharias, filho de pai sírio e de mãe com a mesma origem familiar, nasceu em Goiânia no dia 5 de novembro de 1953. Mudou-se ainda criança com os pais, Salomão Hamu Neto e Ranza Calil Hamu, para Ribeirão Preto (SP). O retorno para Goiânia aconteceu por volta de 1967, onde constituiu família com a psicóloga Sandra de Souza Hamu. O casal tem quatro filhos, dois deles médicos: Camila, Cejana, Rogério e Caroline.

Zacharias Calil ao lado da esposa, Sandra, e dos filhos (Foto: redes sociais/Zacharias Calil)

Carreira de sucesso na medicina

Zacharias se formou em Medicina na turma de 1981 da Universidade Federal de Goiás (UFG) e se dedicou à residência no Hospital de Base do Distrito Federal (DF) até 1985. A produção bibliográfica dele começa em seguida, com pesquisas sobre diagnóstico precoce de tumores na infância, anomalias congênitas cirurgias pediátricas e malformações em crianças, entre outros assuntos correlatos.

Em junho de 2017, o médico trabalhava no Hospital Materno Infantil (HMI) quando desenvolveu e patenteou um medicamento para tratar de hemangiomas e linfohemangiomas – que são tumores vasculares benignos causados por um crescimento irregular de vasos sanguíneos, e decorrentes de uma malformação congênita.

Zacharias e o filho Rogério, também cirurgião (Foto: redes sociais/Zacharias Calil)

Esses tumores, segundo o próprio Zacharias Calil, costumam aparecer principalmente na cabeça ou no pescoço. Além do prejuízo à autoestima, geram problemas na respiração e na deglutição de crianças. O remédio é injetável, composto por nitrato de prata e corticoide, e é autorizado pela Anvisa.

Na época, Zacharias disse em uma entrevista que solicitou audiência com o governador da época, Marconi Perillo, para discutir o desenvolvimento do remédio. “Ele me incentivou com esse projeto. O Governo de Goiás comprou os medicamentos e o laser”, afirmou ele em 2002.

Zacharias Calil dá entrevista sobre um dos casos clínicos nos quais ele trabalhou (Foto: redes sociais/Zacharias Calil)

Fama que atravessou oceanos

A fama do médico especializado hemangiomas e linfohemangiomas atravessou oceanos rapidamente. No dia 28 de março de 2018, o jornal O Popular contou a história de um garoto angolano chamado Arão Guilherme Miranda Manuel, de 8 anos, que veio para Goiânia com objetivo específico de se tratar com Zacharias.

A jornalista Malu Longo relatou que o pai dele, Domingos Bernardo Manuel, buscou respostas para o desafio do filho na internet e encontrou o médico goiano depois de várias tentativas na Alemanha, África do Sul e Cuba. Arão fez a cirurgia que precisava e, com direito de doações, voltou com o pai para Luanda. “Eu não sei o que vou dizer ao povo angolano quando retornar para casa. Nunca vi nada igual ao que encontrei no Brasil. Estou muito agradecido”.

A primeira cirurgia de gêmeas siamesas

A primeira cirurgia de separação de gêmeos siameses em Goiás aconteceu em 1999, no Materno Infantil. As pacientes foram as irmãs Larissa e Lohaine Gonçalves Canindé, que nasceram em setembro daquele ano unidas pela pelve e pelo abdômen.

Larissa e Lohaine foram adotadas por Luciana Gonçalves um mês e oito dias depois do nascimento. A mãe biológica delas é a irmã de Luciana, que não conseguiu lidar com o desafio por causa de um quadro de depressão.

“Naquela época eu nem imaginava que nascia gente daquele jeito. Quando eu fui visita-las no hospital eu passei mal, porque nunca imaginei aquilo na minha vida. Depois foi aquela rotina de hospital, a labuta do leite, que era caro”, disse Luciana à PUC TV. “No primeiro momento a gente não queria divulgar elas, mas chegou em um ponto em que a gente não deu conta e entendemos que nosso único recurso era procurar ajuda”.

O jornalista Jordevá Rosa conta que foi ele quem descobriu o caso das recém-nascidas e intermediou o contato com o hospital. “Eu estava no meio da avenida Araguaia, no centro de Goiânia, correndo para entregar uma reportagem, e aí uma pessoa chegou em mim e disse: ‘eu sei de um caso de gêmeos siameses’. A pessoa não conseguiu explicar como as crianças haviam nascido, até que fez um desenho. Porque era diferente, eu nunca tinha visto. Exibimos uma reportagem e foi então que telefonou um médico, até então desconhecido, chamado Zacharias Calil se prontificando para fazer o acompanhamento. Abrimos as portas e Goiás hoje é referência na separação de gêmeos siameses”.  

Jornalista Jordevá Rosa, personagem que participou da primeira cirurgia de separação de gêmeos siameses feita pelo médico Zacharias Calil (Foto: Divulgação)

A operação correu em junho de 2000, quando as duas tinham cerca de 10 meses. Sete anos depois, Lohaine faleceu. Ela tinha paralisia cerebral e sempre lidou com um quadro de saúde mais frágil. Nos últimos meses de vida, apresentou problemas respiratórios. O óbito foi causado por embolia pulmonar.

Em entrevista ao Fantástico em março de 2025, Larissa, a única que sobreviveu, revelou o sonho de ser médica. “Eu me imagino formada, atendendo meus pacientes, ganhando meu dinheiro, viajando, curtindo a vida”. Na época, ela morava em Santo Antônio de Goiás, a 153km de Goiânia, e trabalhava em um Centro de Referência em Assistência Social (Cras). 

Heloá e Valentina Prado

Outro caso de grande repercussão atendido por Zacharias Calil foi o das irmãs siamesas Heloá e Valentina Prado, em janeiro de 2023. As gêmeas nasceram em Guararema, no interior de São Paulo, e se mudaram para Morrinhos para facilitar o acompanhamento médico, em Goiânia. As duas passaram anos sendo preparadas para cirurgia. Além de monitorar o quadro geral de saúde, a equipe implantou expansores de pele para facilitar a reconstrução.

O procedimento operatório aconteceu no Hospital Estadual da Criança e do Adolescente (Hecad), mobilizou mais de 200 profissionais e durou cerca de 15 horas. As duas crianças receberam alta 51 dias depois e estão vivas até hoje.

Heloá e Valentina, gêmeas siamesas separadas em 2023 por Zacharias Calil (Foto: Reprodução/siamesas.heloa.valentina.kayla)

Kiraz e Aruna

Nascidas no interior de São Paulo, Kiraz e Aruna Rodrigues não tiveram o mesmo desfecho feliz e Heloá e Valentina Prado. As duas também se mudaram com a família para Goiânia com objetivo de serem atendidas pelo médico Zacharias Calil e se submeteram à cirurgia de separação, mas faleceram depois.

O procedimento aconteceu no dia 10 de maio de 2025. Envolveu 60 profissionais e 16 cirurgiões – entre eles o filho de Zacharias, Rogério Hamu. Após dez dias, Kiraz foi diagnosticada com morte encefálica. Aruna resistiu por sete meses, mas veio a óbito no dia 24 de dezembro, véspera de Natal, em decorrência de uma infecção grave.

Aruna, uma das siamesas, após cirurgia de separação (Foto: redes sociais/Zacharias Calil)

Marcos e Matheus

Marcos e Matheus, os gêmeos siameses com nome de apóstolos, nasceram com 34 semanas de gestação no Hospital Estadual da Mulher (Hemu), em Goiânia, no dia 6 de janeiro de 2026. A mãe deles é de Canarana, no Mato Grosso, mas fez o parto em território goiano para ser assistida por Zacharias Calil.

O médico disse que o caso era extremamente raro e complexo, e a prova disso é a que a equipe do Hemu não conseguiu salvá-los. Um deles sofreu sucessivas paradas cardiorrespiratórias e faleceu na madrugada do dia 8 de janeiro, uma quinta-feira. Zacharias fez uma cirurgia emergencial de separação na tentativa de garantir a sobrevivência da outra criança, mas ela não resistiu. O óbito foi constatado no mesmo dia.

O médico que virou deputado

Zacharias sempre cultivou bom relacionamento com a classe política de Goiás e nunca escondeu o desejo de construir uma carreira política paralela à de médico. O primeiro cargo público de relevo que ele ocupou foi o de presidente da Agência Ambiental de Goiás, estrutura que depois viraria a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad). A passagem dele pela função ocorreu em 2006, ano em que Marconi Perillo encerrou o segundo mandato dele e passou a faixa de governador para Alcides Rodrigues.

Em 2018, Zacharias Calil conquista o primeiro mandato dele de deputado federal, com 151.508 votos. O médico foi o terceiro mais votado naquele ano, atrás apenas de Flávia Morais (PDT), com 169,7 mil votos, e Delegado Waldir (PSL), com 274,4 mil.

Zacharias foi reeleito em 2022, mas com menos votos: 87.919. No ranking geral de Goiás, foi o 10º mais votado. Nas duas campanhas, o cirurgião pediatra estava filiado ao mesmo partido: o DEM, que virou União Brasil em 2022.

Zacharias Calil, a esposa e o governador Daniel Vilela (Foto: redes sociais/Zacharias Calil)

No momento em que analisava as melhores estratégias para disputar a eleição de 2026, Zacharias deixou o União Brasil por entender que merecia espaço na chapa majoritária da base do governador Daniel Vilela (MDB) e não conseguiria.

Por um período de tempo, o deputado conversou tanto com PL, quanto com PSDB para viabilizar o projeto político dele. No começo de 2026, ele disse: “sou pré-candidato ao Senado e o que eu decidi é que eu tenho que ir para um partido que tenha candidato a governador. Tem o PL e tem o PSDB. O PL também tem os seus compromissos, não sei como vai ser… eu tenho conversado muito com senador Wilder Morais para que a gente possa tomar uma decisão juntamente com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. Agora, se eu não tiver opção, eu vou ter que fechar com nosso ex-governador Marconi Perillo”.

No dia 2 de março, o médico anunciou a decisão de se filiar ao MDB, partido de Daniel Vilela. Na solenidade, ele afirmou que a legenda havia lhe garantido espaço para ser candidato a senador, como desejava.

O interesse de Zacharias de concorrer ao Senado foi um dos motivos que levaram a base aliada de Daniel e do ex-governador Ronaldo Caiado a desistir da estratégia de lançar apenas duas candidaturas de senador e liberar todos os partidos do grupo a lançar seus próprios nomes.

Voto contra reforma tributária

Um dos posicionamentos de Zacharias Calil que mais repercutiram na imprensa ocorreu durante a votação da regulamentação da Reforma Tributária, em 2024. O deputado votou contra a proposta e, em discurso no plenário, afirmou que o pacote fiscal aumentaria desigualdades e prejudicaria a população de baixa renda. Entre os pontos criticados por ele estavam:

  • mudanças no Benefício de Prestação Continuada (BPC);
  • restrições ao reajuste do salário mínimo;
  • cortes em programas educacionais;
  • alterações no Proagro;
  • manutenção da Desvinculação das Receitas da União (DRU).

O discurso foi amplamente divulgado pela Câmara dos Deputados. Parlamentares da base do governo criticaram sua posição. Setores da oposição elogiaram o voto.

Zacharias Calil ironiza presidente Lula no plenário da Câmara dos Deputados (Foto: redes sociais/Zacharias Calil)

Posição conservadora em pautas de costumes

Embora não seja um deputado conhecido por liderar essas pautas, o cirurgião-pediatra costuma votar alinhado à bancada de centro-direita em temas relacionados a:

  • defesa da vida desde a concepção;
  • oposição à ampliação das hipóteses legais de aborto;
  • fortalecimento da família tradicional.

Esses posicionamentos receberam críticas de movimentos ligados aos direitos reprodutivos, mas não resultaram em grandes embates protagonizados diretamente por ele.

Atuação durante a pandemia

Durante a pandemia da Covid-19, Zacharias ganhou destaque nacional por defender a vacinação, apoiar a ciência e criticar fake news que tentavam legitimar tratamentos sem comprovação.

Ao mesmo tempo, manteve bom relacionamento político com parlamentares bolsonaristas, o que fez com que recebesse críticas tanto da esquerda quanto de parte da direita em momentos distintos.

Zacharias Calil recebendo vacina no braço (Foto: redes sociais/Zacharias Calil)

Defesa de maior liberdade para humor

Em 2025 apresentou projeto para proteger manifestações humorísticas e satíricas, estabelecendo limites para responsabilização penal de humoristas, desde que não houvesse dolo discriminatório ou incitação à violência. A proposta dividiu opiniões entre defensores da liberdade de expressão e grupos que entenderam que poderia ampliar a tolerância a discursos ofensivos.

Curiosidade: o viaduto Zacharias Calil

Por causa de um autógrafo de lei aprovado na Assembleia Legislativa de São Paulo em 2012, foi batizado como “Zacharias Calil” um viaduto que fica no km 313 da Rodovia Anhanguera (SP-330), em Ribeirão Preto.

A homenagem não é ao deputado, mas para o avô dele, que tinha o mesmo nome e foi comerciante na região. A proposta foi do então deputado Welson Gasparini.

Zacharias Calil em frente à placa que homenageia o avô dele, na rodovia Anhanguera, em São Paulo (Foto: redes sociais/Zacharias Calil)

Fonte Original Mais Goias

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