Flávio Bolsonaro: a candidatura de um homem só

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Recebida com ceticismo e desânimo por dirigentes de partidos de centro e expoentes do PIB nacional, que defendiam uma chapa presidencial encabeçada pelo governador Tarcísio Gomes de Freitas, a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) dissipou dúvidas e mostrou força rapidamente.
Aproveitando-se da falta de rumo do governo e do alto nível de rejeição ao presidente Lula, o filho mais velho de Jair Bolsonaro cresceu nas pesquisas e, em alguns levantamentos, apareceu numericamente à frente do petista nas simulações de segundo turno. Tudo isso, como se diz no jargão, jogando parado, sem fazer esforço, apenas se beneficiando dos erros do adversário.
O céu parecia o limite para o senador. Caciques do Centrão negociavam uma adesão formal à chapa. Flávio Bolsonaro era recebido em São Paulo naqueles jantares típicos de campanha que reúnem grandes empresários e formadores de opinião. A VEJA, um de seus mais próximos aliados chegou a declarar em março: “Ele já ganhou. É o próximo presidente do Brasil”.
A dura realidade
Como de costume, “faltou combinar com os russos”, como ensina a máxima atribuída ao genial Mané Garrincha. Depois da arrancada inicial, Flávio Bolsonaro foi jogado para as cordas por uma sucessão de episódios negativos para a sua campanha. Três deles merecem destaque.
A ameaça de um novo tarifaço às exportações brasileiras, consumada pelo governo de Donald Trump na quarta-feira 15, reforçou a impressão entre eleitores e agentes econômicos de que a família Bolsonaro coloca seu projeto político acima dos interesses do país. De quebra, deu a Lula a chance de empunhar novamente a bandeira da defesa da soberania nacional.
A revelação de que Flávio Bolsonaro pediu 134 milhões de reais para Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e protagonista da maior fraude bancária da história do país, atingiu o discurso de combate à corrupção do senador e arranhou sua imagem em nichos importantes do eleitorado, como os evangélicos.
Já o vídeo-desabafo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, em que acusa o Zero Um de humilhá-la e desrespeitá-la, tornou ainda mais difícil a tentativa da campanha de se aproximar do eleitorado feminino, um de suas fragilidades notórias.
Tantos contratempos estão custando caro. Segundo pesquisa Genial/Quaest, a diferença de Lula para Flávio Bolsonaro na simulação de segundo turno passou para oito pontos em julho (45% a 37%). Em abril, era o senador que liderava, por 42% a 40%.
Os danos também são políticos. A turma do Centrão que antes flertava com um apoio formal ao principal nome da oposição se recolheu e agora dá sinais de que prefere apostar na neutralidade. Ciro Nogueira, presidente do Progressistas e chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, não só se distanciou de Flávio Bolsonaro como piscou para Lula, a quem elogiou num palanque no Piauí.
Outros quadros influentes da direita também não estão empenhados na campanha do primogênito do capitão, como o governador Tarcísio de Freitas e o deputado federal Nikolas Ferreira. Apesar de estarem em Brasília, as senadoras Damares Alves (Republicanos) e Tereza Cristina (Progressistas) não participaram de um ato convocado por Flávio Bolsonaro com lideranças femininas.
O senador, que pretendia construir uma imagem de moderado e ampliar sua área de influência para o centro, está cada vez mais restrito ao nicho radical do bolsonarismo, que é comandado por seus irmãos Eduardo e Carlos e tem atacado aliados da direita que, segundo eles, estão fazendo corpo mole ou sabotando a postulação do Zero Um. Entre os alvos, Tarcísio, Michelle, Nikolas, Damares…
A menos de três meses da eleição, Flávio Bolsonaro não conta com um apoio de peso fora do clã Bolsonaro. Também não tem um “Posto Ipiranga” para andar de mão dada pela Faria Lima, como o capitão teve em 2018. O senador está cada vez mais só — e cada vez mais dependente do sobrenome. Por isso, divulgou a carta na qual o pai defende a sua candidatura. Foi uma tentativa de mostrar força, mas que revelou, acima de tudo, o tamanho de sua debilidade.
Essa situação não é definitiva. Há tempo de sobra para reviravoltas. Mas o desafio não é pequeno. Segundo levantamento Genial/Quaest, Flávio Boslonaro perdeu intenção de voto entre eleitores independentes e até na direita que não é bolsonarista — neste segmento, foram dez pontos entre março e julho.
