Textos de papiros e pergaminhos carbonizados pelo Vesúvio começam a ser decifrados
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Em 79 d.C., a erupção do Vesúvio soterrou as cidades de Pompeia e Herculano sob toneladas de material vulcânico. Pompeia foi atingida por fluxos piroclásticos, mistura fervente de gases, cinzas e fragmentos de rocha que desce pelas encostas de um vulcão. A pequena Herculano teve destino diferente: uma onda de lama sem oxigênio inundou e soterrou seu casario, o que permitiu uma conservação de detalhes preciosos da vida no balneário frequentado pela elite romana. Entre eles está a residência à beira-mar conhecida como Vila dos Papiros. O local teria pertencido a Lúcio Calpúrnio Pisão Cesonino, sogro de Júlio César, e ostentava uma impressionante biblioteca de textos clássicos. Quando a coleção foi descoberta, nas escavações de 1752, o entusiasmo deu lugar à frustração: seus papiros e pergaminhos pareciam galhos carbonizados ou blocos de carvão, e qualquer tentativa de desenrolá-los a mão esfarelava o material, reduzindo os textos a pó. O acervo de mais de 600 rolos ficava, assim, prisioneiro de uma maldição: só seria legível se fosse destruído.
Agora, pela primeira vez em quase 2 000 anos, a ciência enfim encontrou uma forma de desvendar o conteúdo dessa coleção fabulosa. Graças a novas ferramentas de inteligência artificial e raio X digital de alta resolução, pesquisadores ligados ao projeto global Vesuvius Challenge acabam de decifrar um dos papiros de Herculano. A relíquia permite um vislumbre das preocupações existenciais dos figurões da Roma Antiga: traz um texto do filósofo Filodemo de Gádara, um dos principais responsáveis por disseminar e adaptar a filosofia epicurista do prazer e da moderação para a elite da época.
A solução para acessar a escrita contida nos papiros e pergaminhos é engenhosa e abre novas possibilidades para a arqueologia digital. O cientista da computação Brent Seales, da Universidade de Kentucky, desenvolveu um método de “desenrolamento virtual”: a microtomografia de raios X mapeia em 3D e “achata” digitalmente as camadas internas do papiro, sem precisar abri-lo. Como a tinta romana, à base de carbono, permanecia invisível ao raios X, modelos de inteligência artificial foram treinados para reconhecer não a tinta em si, mas as marcas que ela deixava na textura das fibras (confira o quadro).
Para acelerar a pesquisa, Seales lançou em março de 2023, com os investidores Nat Friedman e Daniel Gross, o Vesuvius Challenge, com premiação acima de 1 milhão de dólares para quem utilizar a tecnologia no estudo da biblioteca de Herculano. Os resultados vieram rápido: em outubro daquele ano foi decifrada a primeira palavra de um pergaminho intacto, porphyras (“púrpura”), e, em 2024, o Grande Prêmio foi concedido a Youssef Nader, Luke Farritor e Julian Schilliger, que leram passagens com mais de 2 000 caracteres. Um grupo de cientistas da Universidade de São Paulo (IFSC-USP), liderado pelos professores Odemir Martinez Bruno e Elian Rafael Dal Prá, ficou em segundo lugar e recebeu 50 000 dólares por contribuições ao desenvolvimento da nova tecnologia.

Além do texto de Filodemo de Gádara, os cientistas do projeto trouxeram à luz um manual de ética da Escola Estoica atribuído a Crisipo, um dos filósofos mais importantes da Grécia Antiga e o principal sistematizador dessa vertente. O Vesuvius Challenge alcança, com tais feitos, um impacto metodológico mais amplo para a arqueologia digital: mostra que investigar o passado não exige mais sacrificar o objeto físico. A mesma lógica algorítmica já é usada pelo sistema Palaeographicum, que reagrupa e analisa fragmentos de tabuletas cuneiformes mesopotâmicas e hititas espalhados por museus do mundo. Modelos que demandariam décadas de trabalho manual passam a ser executados em poucos minutos. O mesmo princípio pode, em tese, ser aplicado a outros materiais frágeis.
No passado, a exploração de sítios arqueológicos costumava envolver intervenções físicas e, muitas vezes, destrutivas. Agora, essa responsabilidade passa a ser dos sistemas digitais. A inteligência artificial, frequentemente associada na ficção científica e no debate público a riscos para a sociedade, aparece aqui em um papel diferente: o de ferramenta valiosa para ampliar nosso saber sobre a Antiguidade. “Os rolos fechados parecem livros mortos, mas não são”, disse a professora Federica Nicolardi, especialista em papiros da Universidade de Nápoles Federico II. “Eles estão começando a falar novamente.” A tecnologia prova que esse conhecimento fantástico não estava perdido: apenas esperava uma forma de renascer das cinzas — e nos deslumbrar.
Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002

