Novos ataques dos EUA ao Irã expõem frágil cessar-fogo na guerra

Os Estados Unidos atacaram neste sábado, 27, “múltiplos alvos” no Irã, em resposta a um novo ataque contra um navio nas proximidades do Estreito de Ormuz, anunciou o Exército americano. A ofensiva ocorreu por ordem do presidente Donald Trump e expõe a fragilidade do acordo de cessar-fogo na guerra, que completa quatro meses neste domingo, 28.
A Força Aérea dos Estados Unidos “realizou novos ataques contra múltiplos alvos no Irã”, dirigidos contra “infraestruturas de vigilância militar iranianas, sistemas de comunicação, instalações de defesa aérea, depósitos de drones e meios utilizados para a colocação de minas”, informou o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) em publicação na rede social X.
Segundo o Centcom, os bombardeios foram realizados em represália a um ataque cometido por um drone iraniano contra um petroleiro de bandeira panamenha que transportava mais de dois milhões de barris de petróleo bruto pelo Estreito de Ormuz.
Acusações do Irã
O Irã acusou os EUA neste sábado de uma “violação flagrante” do protocolo de acordo firmado para pôr fim à guerra no Oriente Médio, após os bombardeios americanos em seu território, que provocaram uma retaliação de Teerã.
A troca de ataques reacende as dúvidas sobre os esforços para manter aberto o Estreito de Ormuz, estratégico para o comércio mundial de petróleo e gás, justamente quando as duas partes entraram em uma fase de 60 dias de negociações para alcançar um acordo definitivo.
Os bombardeios americanos de sexta-feira, os primeiros conhecidos desde a assinatura do protocolo de acordo em 17 de junho, ocorreram após “o ataque do dia anterior contra um navio mercante que transitava pelo estreito”, segundo o Exército dos Estados Unidos, que afirmou ter “atingido depósitos de mísseis e drones e posições de radares costeiros no Irã”.
Teerã denunciou uma “violação flagrante” da “Carta das Nações Unidas” e “do protocolo de acordo”.
Os Guardiões da Revolução, o exército ideológico da República Islâmica, anunciaram neste sábado ter atacado posições americanas na região. “Se a agressão se repetir, nossa resposta será mais ampla”, advertiram.
No Golfo, o Bahrein informou ter sido alvo de vários drones iranianos e acusou Teerã de “sabotar os esforços de paz”.
Além disso, um petroleiro foi atingido por um projétil não identificado no Estreito de Ormuz, informou a agência marítima britânica UKMTO, segundo a qual “a tripulação está sã e salva”.
A televisão estatal iraniana havia informado na noite de sexta-feira sobre uma explosão em um píer na cidade de Sirik, no sul do país, e sobre disparos de advertência contra “embarcações em infração” no Estreito de Ormuz.
“O Irã assinou um acordo de cessar-fogo. Nós o respeitamos. Se eles têm divergências sobre a aplicação do protocolo de acordo, podem simplesmente pegar o telefone. Mas a violência apenas gerará mais violência”, escreveu na rede social X o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance.
Por sua vez, o presidente Donald Trump classificou o ataque ao navio cargueiro como uma “violação estúpida” do cessar-fogo.
“Pressão constante”
“O Irã deveria continuar com ações coercitivas calibradas e de baixa intensidade no Estreito de Ormuz e em seus arredores (…) para manter uma pressão constante sobre o transporte marítimo internacional sem desencadear um conflito mais amplo”, afirmou H.A. Hellyer, do Royal United Services Institute, de Londres.
O tráfego marítimo, no entanto, continuou no estreito, reaberto pelo Irã após o protocolo de acordo.
Várias embarcações seguiram uma rota não aprovada por Teerã, apesar de a autoridade marítima iraniana ter advertido que “qualquer passagem fora do marco definido não se beneficiaria das garantias de trânsito seguro”.
A Organização Marítima Internacional (OMI) informou que o processo de evacuação de cerca de 600 navios, com 11 mil marinheiros a bordo, que permanecem retidos no Golfo desde o início da guerra, será retomado assim que forem obtidas “confirmações adicionais” sobre as garantias de segurança.
Desde terça-feira, cerca de 2.500 marinheiros e 115 embarcações foram evacuados, segundo a OMI.
Já enfraquecida por anos de sanções internacionais, a economia iraniana também enfrenta o custo da guerra: a inflação disparou em junho para cerca de 89% na comparação anual, segundo estatísticas oficiais divulgadas neste sábado.
Alguns produtos, como a carne, registraram aumento de 178,2%.
“Permanência prolongada” de Israel no Líbano
Na outra frente do conflito, o líder do movimento libanês pró-Irã Hezbollah, Naim Qassem, classificou neste sábado como “um grave erro” o acordo-quadro de paz entre Líbano e Israel, assinado no dia anterior.
Qassem pediu ao governo libanês que se arrependa de “seus pecados, que estão arruinando o Líbano”.
Por sua vez, Israel realizou novos bombardeios no sul do país vizinho, que deixaram um morto, segundo o Ministério da Saúde libanês.
O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, anunciou uma “permanência prolongada” do Exército no país vizinho, ressaltando que a base do acordo condiciona a retirada israelense ao desarmamento do Hezbollah.
O texto estabelece como objetivo alcançar uma “paz e segurança duradouras” entre os dois países, tecnicamente em estado de guerra há várias décadas.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou neste sábado que esse acordo “histórico” representa “um golpe para o Irã e para o Hezbollah”.
No entanto, seu aliado de extrema direita, Itamar Ben Gvir, classificou o acordo como “um grande erro” e afirmou não confiar que o Estado libanês seja capaz de desarmar o Hezbollah.
O Líbano foi arrastado para o conflito no início de março, quando o Hezbollah atacou Israel em apoio ao Irã, após a ofensiva americana e israelense contra Teerã em 28 de fevereiro.
(informações da AFP)
