o primeiro romeiro do Divino Pai Eterno em Goiás

o primeiro romeiro do Divino Pai Eterno em Goiás

ORIGENS DA DEVOÇÃO

Constantino Xavier de Maria deu início à devoção que transformaria o antigo Barro Preto em um dos maiores centros de peregrinação católica

Estátua de Constantino e esposa Ana, os primeiros romeiros de Trindade e ponto de partida da devoção ao Divino Pai Eterno em Goiás (Foto: reprodução)

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Muito antes de Trindade se tornar um dos principais destinos de peregrinação católica do Brasil, a região era apenas uma área rural conhecida como Barro Preto. Segundo o pesquisador Bento Fleury, PhD em Geografia e autor de diversos livros sobre a história de Trindade, o local pertencia ao antigo município de Campininha das Flores, onde hoje está localizado o tradicional bairro de Campinas, em Goiânia. Foi nesse cenário que o mineiro Constantino Xavier de Maria construiu sua vida e deu início a uma devoção religiosa que atravessaria gerações. Pela tradição oral e histórica, ele é considerado o primeiro romeiro de Trindade e fiel pioneiro do Divino Pai Eterno em Goiás. O encontro de fiéis na Capital da Fé completa 186 anos em 2026, com programação que se estende da próxima sexta-feira (26/6) até segunda-feira (6/7).

Bento Fleury explica que Constantino nasceu na região de São João del-Rei, em Minas Gerais, embora não exista documentação oficial que confirme a cidade exata de sua origem. Ainda solteiro, ele trabalhava como moleiro, atividade ligada à moagem de grãos e bastante comum no interior do país durante o século XIX.

Em busca de novas oportunidades, migrou para Goiás e passou primeiro por Pirenópolis, então chamada de Meia-Ponte. Na cidade, casou-se com Ana Rosa de Oliveira, integrante de uma família tradicional da região e parente de Joaquim Alves de Oliveira, o proprietário da histórica Fazenda Babilônia, preservada até os dias atuais.

Após o matrimônio, o casal adquiriu uma pequena propriedade rural nas proximidades da nascente do Córrego Barro Preto, área que atualmente corresponde à região central de Trindade. Foi ali, na década de 1830, que Constantino instalou uma olaria e passou a trabalhar com a produção de tijolos e peças de barro.

Reprodução do medalhão de barro cozido com a imagem da Santíssima Trindade, encontrado por Constantino Xavier na década de 1830 (Foto: Santuário Pai Eterno)

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Medalhão do Divino Pai Eterno

Segundo os relatos preservados pela tradição, foi justamente durante a retirada de barro para a olaria que Constantino teria encontrado um medalhão de barro cozido representando a Santíssima Trindade. Impressionado com o objeto, teria chamado a esposa, Ana Rosa, para então se ajoelharem e rezarem o terço diante da imagem. Esse momento é considerado o marco inicial da devoção ao Divino Pai Eterno.

Cientificamente, não há comprovação desse achado. Há também versões populares que sugerem que Constantino teria trazido a imagem de Minas Gerais, onde o culto ao Divino Pai Eterno já era difundido à época. O primeiro relato escrito sobre a história só seria registrado em 1898 pelo pároco Manuel Pio, décadas após os acontecimentos, consolidando uma narrativa que até então era transmitida apenas pela tradição oral.

A devoção ao Divino Pai Eterno ganhou estrutura institucional e consolidou definitivamente Trindade (Foto: Bento Fleury /Museu virtual)

Surgimento da Romaria de Trindade

Fleury reforça que as orações realizadas pelo casal logo começaram a atrair atenção de moradores da região. “Vizinhos e conhecidos começaram a frequentar o local. É aí que nasce a romaria”, afirmou. O movimento religioso se espalhou gradualmente e, desde o início, esteve profundamente ligado às raízes rurais do Barro Preto. “Era uma romaria sertaneja e cabocla, formada por gente simples, pequenos lavradores e sitiantes do Barro Preto”, destacou o pesquisador.

Com o aumento do número de devotos, Constantino mandou construir uma pequena capela coberta de folhas de buriti. No local eram realizados terços e novenas comunitárias. A estrutura simples se transformaria no primeiro passo para a grandiosidade que a Festa do Divino Pai Eterno alcançaria nos séculos seguintes.

A morte de Constantino

Constantino Xavier morreu em 1854, antes mesmo de o povoado de Trindade adquirir uma estrutura urbana consolidada. Como ainda não havia cemitério na região do Barro Preto — o primeiro seria construído apenas na década de 1870 —, ele foi sepultado na antiga Matriz de Campinas, templo posteriormente demolido, mas onde permanecem registrados sua certidão de óbito e seu guia de sepultamento.

Com a morte do marido, Ana Rosa de Oliveira permaneceu sozinha na criação dos filhos. Pesquisas históricas apontam o registro de batismo de apenas dois filhos do casal, entre eles Salvino. Nenhum descendente direto permaneceu em Trindade, fazendo com que a linhagem familiar declarada se perdesse ao longo do tempo.

O destino final de Ana Rosa também permanece cercado de incertezas. Ela não foi encontrada nos registros de cemitérios locais, o que sugere que possa ter deixado a região ou sido sepultada na própria propriedade rural, como era costume na época.

Ainda assim, seu nome permaneceu definitivamente ligado ao surgimento da devoção que transformaria uma pequena propriedade rural em um dos maiores centros de peregrinação católica do Brasil.

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Fonte Original Mais Goias

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