O médico brasileiro entre os 100 cientistas mais influentes do mundo

Nem todo cientista que é reconhecido internacionalmente trabalha em um tema que chama atenção do público imediatamente. É o caso do paranaense Roberto Pecoits-Filho, 56 anos. Natural de Curitiba (PR), o médico nefrologista construiu sua trajetória justamente estudando uma doença silenciosa, que costuma avançar sem sintomas e só se revela quando já compromete seriamente a saúde dos pacientes.
Professor titular da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), pesquisador com atuação internacional e uma das maiores referências brasileiras em nefrologia, Roberto foi incluído entre os 100 cientistas mais influentes do mundo, reconhecimento baseado no impacto de sua produção acadêmica. São mais de 500 artigos científicos publicados e décadas dedicadas a entender como diagnosticar precocemente a doença renal crônica e impedir sua progressão.
O destaque foi recebido com satisfação, mas sem perder de vista o que considera ser o verdadeiro significado da honraria. “O aspecto mais relevante desse reconhecimento é que ele ajuda a justificar o apoio e os investimentos que o país e as instituições de ensino fizeram ao longo da minha trajetória”, afirma à coluna GENTE.
Para ele, a conquista é também resultado da importância do sistema de formação científica no Brasil, sustentado por bolsas de pesquisa e investimentos públicos em pós-graduação. “Quando vejo o impacto da minha pesquisa, certamente isso mostra que esse investimento valeu a pena para quem estrategicamente pôs os recursos para que isso tivesse acontecido. E vamos lembrar que muito desse investimento vem do setor público. Então é um retorno para as instituições de educação e para a sociedade”, ressalta.
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Da PUCPR para o mundo
Formado em Medicina pela própria PUCPR, Pecoits-Filho fez doutorado na USP, passou pela Universidade do Missouri, nos Estados Unidos, e realizou pós-doutorado no Instituto Karolinska, na Suécia, além de um período sabático como professor visitante no George Institute for Global Health na Austrália. A carreira internacional o levou a coordenar estudos em diversos países e a ocupar posições de destaque em organizações científicas globais, tendo inclusive integrado o comitê executivo da International Society of Nephrology (ISN).
Apesar dos títulos, sua principal preocupação continua sendo uma doença que, segundo o cientista, ainda é invisível para grande parte da população. “Em geral, os pacientes não apresentam sintomas até estágios mais avançados da doença. Por isso, é fundamental ampliar a conscientização sobre o problema e desenvolver estratégias para identificar precocemente os casos, estabelecer as melhores condutas de manejo e evitar tanto a progressão da doença quanto suas complicações”, enfatiza.
A pesquisa do tratamento da doença renal crônica
Ao longo de mais de 20 anos, seu trabalho ajudou a transformar a perspectiva de quem convive com a doença renal crônica. Quando concluiu a residência médica, havia apenas uma classe de medicamentos comprovadamente eficaz para proteger os rins. Hoje, graças a inúmeros estudos clínicos dos quais participou, o arsenal terapêutico foi ampliado com novos medicamentos capazes de reduzir o risco de progressão da doença e de complicações cardiovasculares.
“Atualmente, se um paciente descobre a doença em seus estágios iniciais e seu médico adota as melhores terapias baseadas em evidências, podemos oferecer uma perspectiva que, há algum tempo, seria impensável. Mesmo convivendo com a doença renal crônica, esse paciente pode ter a expectativa de nunca precisar de diálise ou de um transplante. Com as intervenções adequadas, somos capazes de controlar a doença e prevenir sua progressão de maneira muito mais eficaz do que no passado”, explica ele, otimista com os avanços da medicina no futuro.
“No passado a única coisa que a gente conseguia fazer era prolongar o tempo até que o paciente necessitasse de diálise. Hoje, desde que a detecção da doença seja precoce, podemos vislumbrar um futuro em que o paciente viva sua vida plenamente, sem precisar conviver com a perspectiva inevitável da diálise ou de outras complicações que comprometam sua qualidade de vida”, finaliza.
