Veículos de inadimplentes recuperados por via extrajudicial já são 70% do total

Veículos de inadimplentes recuperados por via extrajudicial já são 70% do total

A recuperação extrajudicial de veículos financiados já resolve cerca de 70% dos casos de inadimplência, segundo dados recentes do setor. A medida faz parte do Marco Legal das Garantias (Lei 14.711/2023), regulamentado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) em julho de 2025, e tem como objetivo reduzir custos na concessão de crédito e ampliar o acesso ao financiamento de carros, motos e caminhões.

Na prática, a mudança impõe que bancos e instituições financeiras podem recuperar veículos em estado de alienação fiduciária em caso de inadimplência sem precisar recorrer à Justiça. O modelo permite que os credores utilizem três canais para a execução da garantia: os Detrans, que passaram a ser canais habilitados, os cartórios e a via judicial tradicional, que continua disponível.

“Ao permitir que diferentes operadores executem a garantia, a lei cria concorrência, e concorrência pressiona prazo e custo para baixo”, explica Renata Herani, presidente da Tecnobank, empresa especializada no registro digital de contratos de financiamento de veículos. O processo é totalmente digital. Após a inserção das informações do contrato em sistemas integrados aos órgãos competentes por parte do credor, o devedor recebe uma notificação eletrônica com prazo para regularização da dívida.

Para Herani, a medida muda o incentivo dos dois lados. “Para o credor, dá previsibilidade na execução da garantia, o que reduz o risco de crédito e abre espaço para ampliar a oferta e melhorar as condições”, afirma. “Para o consumidor, o efeito é de transparência: ele sabe que existe uma régua e um prazo, e que regularizar é mais simples do que deixar o problema escalar.”

As recuperações extrajudiciais ainda ganham relevância em um momento de expansão acelerada do crédito automotivo. De acordo com a Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (ANEF), o financiamento de veículos no Brasil cresceu 12% em 2025, alcançando o maior volume dos últimos 14 anos, com 7,3 milhões de unidades financiadas e 544 bilhões de reais movimentados no país.

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Apesar do avanço, o crédito para compra de veículos continua entre os mais caros do mundo. A taxa média de juros chegou a 29,5% ano passado, recorde da série histórica do Banco Central. No mesmo período, a inadimplência atingiu 5,6%, alta de 1,4 ponto percentual em relação a 2024.

De acordo com especialistas do setor, parte desse custo está relacionada à dificuldade histórica de execução das garantias. “Quando retomar um veículo inadimplente exige meses de processo judicial, honorários e incerteza sobre o desfecho, o credor precifica esse risco na taxa cobrada de todos, inclusive do bom pagador”, reforça Herani. “Não é que essa fricção cause diretamente a inadimplência, mas ela mantém o crédito caro, e crédito caro realimenta o risco.” Para ela, reduzir essa fricção é uma das alavancas mais diretas para baratear o financiamento no Brasil.

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