Falhas no agendamento de consultas em Goiânia alertam TCM
Falhas em sistemas usados pela rede municipal de saúde de Goiânia, problemas no agendamento de consultas, instabilidade em atendimentos e dificuldades operacionais em unidades públicas estão no centro de uma investigação do Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCM-GO). A apuração envolve dois contratos firmados pela Prefeitura de Goiânia com a empresa CELK Sistemas entre 2020 e 2026, que juntos passam de R$ 40 milhões em pagamentos.
O relatório foi produzido pela Controladoria-Geral do Município (CGM) e aponta suspeitas de contratação duplicada, ausência de justificativa técnica para contratação sem licitação e pagamentos feitos sem comprovação detalhada dos serviços executados.
Além das possíveis irregularidades administrativas, a auditoria destaca impactos diretos no funcionamento da saúde pública da capital. Servidores relataram lentidão, travamentos e falta de integração do sistema com outras plataformas da prefeitura, o que obrigava profissionais a fazer registros manuais e controles paralelos para evitar perda de informações.
No Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), a fiscalização identificou falhas em relatórios, registros de ocorrências e limitações operacionais consideradas graves. Segundo o documento, alguns módulos contratados nunca chegaram a funcionar plenamente, mesmo continuando a gerar cobrança para o município.
Contratos começaram em 2020
O primeiro contrato foi assinado em 2020, durante a administração do ex-prefeito Rogério Cruz, no valor inicial de R$ 3,1 milhões. O acordo previa fornecimento de licença de software para gestão da saúde pública, além de implantação do sistema, migração de dados, manutenção, suporte técnico remoto e customizações.
De acordo com a auditoria, os pagamentos desse contrato ultrapassaram R$ 15 milhões ao longo da execução.
Já em setembro de 2022, a Secretaria Municipal de Saúde assinou um novo contrato com a mesma empresa, desta vez por inexigibilidade de licitação. O valor inicial foi de R$ 6,7 milhões, chegando a cerca de R$ 8,8 milhões após aditivos.
Segundo a CGM, o segundo contrato repetia serviços já previstos no primeiro acordo, sem apresentar delimitação clara do que realmente seria novo ou complementar. Para os auditores, isso levanta suspeitas de duplicidade contratual.
A auditoria também questiona a falta de comprovação de exclusividade da empresa, requisito necessário para justificar a contratação sem concorrência pública.
Problemas afetaram consultas e funcionamento das unidades
Durante visitas técnicas realizadas em unidades da rede municipal, servidores relataram dificuldades frequentes no uso da plataforma. A auditoria afirma que parte das falhas comprometeu a confiabilidade dos dados registrados e prejudicou rotinas administrativas e assistenciais.
O relatório também aponta que documentos usados para justificar pagamentos apresentavam descrições genéricas dos serviços prestados, sem detalhamento adequado e, em alguns casos, sem assinatura de responsável técnico.
Segundo os auditores, parte significativa dos serviços cobrados não possui comprovação documental suficiente de que realmente foi realizada.
Sistema chegou a ser parcialmente suspenso
O relatório relembra ainda a crise ocorrida em abril de 2025, quando a empresa suspendeu gradualmente parte das funcionalidades do sistema alegando inadimplência da prefeitura. Na época, a dívida do município era estimada em cerca de R$ 5,9 milhões.
Com a suspensão, unidades de saúde passaram a enfrentar problemas em agendamentos, registros de atendimentos e funcionamento de serviços administrativos. O caso gerou reclamações de usuários e servidores da rede municipal.
TCM cobra explicações
Diante das irregularidades apontadas, a Controladoria recomendou que o contrato firmado em 2022 não seja certificado como regular. O relatório também pede apuração de responsabilidades administrativas e possível investigação sobre prejuízo aos cofres públicos.
O TCM abriu prazo para manifestação da empresa e dos ex-gestores envolvidos. O tribunal também determinou que a Secretaria Municipal de Saúde, a Procuradoria-Geral do Município e a Controladoria-Geral informem quais medidas estão sendo adotadas.
Outras investigações na saúde de Goiânia
Em setembro do mesmo ano, uma operação do Ministério Público de Goiás apurou suspeitas de corrupção dentro da Secretaria Municipal de Saúde.
A operação apontou prejuízo estimado em R$ 121,8 milhões e investigou supostas irregularidades em pagamentos feitos pela pasta. O secretário municipal de Saúde Wilson Pollara, o secretário-executivo Quesede Ayres Henrique e o diretor financeiro Bruno Vianna Primo foram alvos da ação.
Segundo o Ministério Público, problemas na gestão financeira contribuíram para falta de insumos, dificuldades em hospitais, restrição de leitos e interrupção de serviços considerados essenciais na rede pública.
Em nota emitida na época, a Prefeitura de Goiânia afirmou que colaborou com as investigações e que iria adotar as medidas administrativas necessárias.
O que diz a Secretaria Municipal de Saúde (nota na íntegra)
A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia informa que instaurou processo de sindicância e processos administrativos para apurar irregularidades e eventuais danos ao erário relacionados aos contratos com a empresa CELK Sistemas Ltda., firmados nas duas gestões anteriores.
A pasta destaca que a CELK é responsável pelos sistemas de tecnologia da informação utilizados na rede municipal de saúde e que a atual gestão, ao tomar conhecimento dos apontamentos apresentados pela Controladoria-Geral do Município (CGM) e da apuração do Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCM-GO), adotou providências administrativas, jurídicas e correcionais para garantir rigor técnico, transparência e celeridade nas investigações.
O contrato 005/2020 prevê a contratação da empresa para fornecer licença de uso perpétuo de software de gestão da saúde pública, incluindo implantação, migração de dados, capacitação, manutenção, suporte técnico e customizações. Já o contrato 195/2022 prevê o desenvolvimento, disponibilização e implantação de módulos para utilização do software também no Samu e Vigilância Sanitária.
Em relação ao contrato nº 195/2022, a contratação por inexigibilidade foi fundamentada à época, na gestão anterior, pela exclusividade da empresa como detentora da licença de uso perpétuo dos sistemas, impossibilidade de substituição dos serviços e necessidade de continuidade do funcionamento dos sistemas de saúde.
A SMS informa que o módulo da ferramenta para a Vigilância Sanitária foi desenvolvido, mas a implantação depende de integração com o sistema utilizado pela Secretaria Municipal da Fazenda (Sefaz). A secretaria já trabalha na construção da interfacialidade entre os sistemas para que o módulo seja colocado em operação.
A Pasta informa ainda que os pagamentos realizados à empresa no período de 1º de janeiro de 2020 a 16 de abril de 2026 somam R$ 40.313.142,34 em valores brutos.
