Aguinaldo Silva transforma ‘Três Graças’ em festival de nostalgia

Aguinaldo Silva fez de Três Graças uma espécie de vitrine da própria carreira ao espalhar referências de novelas clássicas ao longo dos capítulos. Entre bordões populares, piadas internas, cenas recriadas e até personagens “ressuscitados” de outras tramas, o folhetim das 9 da Globo, que chega ao fim no dia 16 de maio, transformou a dramaturgia histórica em combustível para a narrativa.
Uma das referências mais recentes foi a recriação do icônico “trava-língua” de Solange Duprat (Lídia Brondi) em Vale Tudo (1989). Em conversa com Arminda (Grazi Massafera), Ferette (Murilo Benício) se enrola ao repetir a frase: “A gente pode enganar todo mundo por quase todo tempo, quase todo mundo por todo tempo, mas não pode enganar todo mundo por todo tempo”.
As autorreferências seguem em diferentes núcleos. Dona Josefa (Arlete Salles) já comparou Arminda à Viúva Porcina, de Roque Santeiro (1985), enquanto diálogos recuperaram expressões de Tieta (1989) e Fina Estampa (2011). O próprio Crô, personagem de Marcelo Serrado, reaparece em cena como uma extensão natural daquele universo criado por Aguinaldo. O mesmo acontece com Téo Pereira (Paulo Betti), o blogueiro venenoso de Império (2014).
Mas a principal homenagem em Três Graças é dedicada a Nazaré Tedesco, vilã eternizada por Renata Sorrah em Senhora do Destino (2004). Em uma das sequências, Arminda empurra um rival escada abaixo, uma clara repetição de uma das imagens mais emblemáticas da televisão brasileira. A novela ainda espalha menções ao “cheiro de couro” e batiza a caminhonete de Joaquim (Marcos Palmeira) de “Nazaré”.
O texto também mistura referências externas ao universo das novelas. Arminda faz piadas envolvendo o BBB, em uma brincadeira com o passado de Grazi Massafera no reality show, e imita a “agachadinha” que Virginia Fonseca performou quando rainha de bateria da Grande Rio. Em outro momento, Aguinaldo inclui uma indireta ao banqueiro Daniel Vorcaro ao reproduzir, em diálogo, uma das mensagens íntimas vazadas do empresário. Já as cenas entre os personagens de Belo e Viviane Araújo parecem escritas com plena consciência da história do ex-casal fora da ficção, embalada por música do cantor criada para Gracyanne Barbosa.
O caso mais explícito de homenagem surgiu no capítulo exibido na última segunda-feira, 4, quando recriou uma das cenas mais célebres do cinema soviético. Na sequência, Arminda empurra o carrinho de bebê de Joélly (Alana Cabral) em uma escada, em clara referência a O Encouraçado Potemkin (1925), clássico dirigido por Sergei Eisenstein. O próprio autor confirmou a inspiração. Em Três Graças, Aguinaldo Silva parece decidido a transformar a nostalgia em linguagem narrativa e levar ao público contemporâneo a memória televisiva.
