Avanço do Pix no exterior desafia intermediários financeiros e sofre pressão de Trump

A expansão do Pix para além das fronteiras nacionais começa a ganhar tração e já altera, ainda que de forma gradual, a experiência de pagamentos de brasileiros no exterior. O sistema do Banco Central, que se consolidou como principal meio de transferência no Brasil, tem aceitação crescente em países da América Latina e presença pontual em mercados europeus e nos Estados Unidos, especialmente em regiões com forte fluxo de turistas. Alguns estabelecimentos estrangeiros aceitam Pix através de fintechs que permitem ao consumidor pagar em reais enquanto o lojista recebe na moeda local.
O processo costuma se dar com QR Codes em maquininhas de cartão. Na prática, o funcionamento para o viajante brasileiro é semelhante ao de uma compra doméstica. Ao escanear o código gerado pelo comerciante, o cliente conclui a transação instantaneamente pelo aplicativo do banco, sem a necessidade de recorrer a cartões internacionais ou adquirir moeda estrangeira previamente. Por trás dessa simplicidade, no entanto, há uma infraestrutura tecnológica que envolve conversão cambial automática e integração entre diferentes sistemas de pagamento.
Esse avanço tem ocorrido de maneira progressiva e depende, sobretudo, de acordos entre instituições financeiras e lojistas nos países de destino. Ainda assim, a presença do Pix, mesmo que incipiente, é observada em mercados da América Latina, como Argentina, Paraguai e Uruguai, além de pontos específicos na Europa, como Portugal, e também nos Estados Unidos, especialmente na Flórida.
A fintech PagBrasil tem intensificado a integração do Pix com o restante da América Latina. Com a plataforma RoamingPay, a empresa permite a conexão do meio de pagamento brasileiro a outros sistemas, como o argentino Transferencias 3.0, o paraguaio SIPAP e colombiano Bre-B.
O impacto do Pix no exterior se estende aos intermediários financeiros tradicionais. Operadoras de cartão de crédito, por exemplo, passam a enfrentar a possibilidade de redução de receitas provenientes de taxas cobradas em transações internacionais.
Ao mesmo tempo, instituições financeiras especializadas em câmbio e contas internacionais ainda preservam espaço relevante nesse ecossistema. “Nesse cenário, o Pix não atua como substituto direto, mas como complemento, especialmente voltado a pagamentos imediatos e de consumo”, diz Bárbara Félix, coordenadora de Direito Bancário do escritório Marcelo Tostes Advogados. Essas empresas continuam oferecendo serviços como contas no exterior e facilidades para transferências recorrentes, que não são o foco principal do Pix.
Para o consumidor, os benefícios mais evidentes estão ligados à previsibilidade e à redução de custos. Diferentemente do cartão de crédito internacional, que pode envolver variações cambiais até o fechamento da fatura e incidência de impostos mais elevados, o Pix permite visualizar o valor final da transação no momento do pagamento. “Ele amplia o acesso ao consumo internacional ao dispensar a necessidade de crédito, beneficiando inclusive usuários sem cartão internacional”, diz Bárbara.
Apesar dos avanços, o crescimento do Pix no exterior não ocorre sem resistência. O modelo passou a ser alvo de críticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e motivou a abertura de uma investigação comercial do país contra o Brasil. A apuração busca avaliar se o sistema brasileiro poderia gerar vantagens competitivas consideradas desleais em relação a empresas americanas de tecnologia e meios de pagamento.
A internacionalização do Pix ocorre por duas vias principais: a aceitação direta em estabelecimentos comerciais estrangeiros e a inspiração para o desenvolvimento de sistemas semelhantes em outros países. O debate, assim, ganha contornos geopolíticos e evidencia uma disputa mais ampla por espaço no sistema financeiro internacional.
