Em vídeo, ex-assessora de Marco Buzzi relata rotina de assédio sexual e terror no STJ

Em 4 de fevereiro, o Radar revelou a existência de um escândalo no STJ. Prestes a completar quinze anos na Corte, o ministro Marco Buzzi, 68 anos, era acusado de assédio sexual por uma jovem de 18 anos – filha de um casal de amigos da família dele. Com a ajuda da mãe, uma conhecida advogada, a garota havia procurado a Polícia Civil de São Paulo e o CNJ para relatar os abusos sofridos durante uma estadia na casa de praia do magistrado, em Santa Catarina.
Os detalhes da acusação formulada pela jovem abalaram o tribunal e a opinião pública, levando o STJ a tomar uma grave medida: afastar temporariamente o ministro de suas funções na magistratura.
Os relatos publicados pelo Radar naqueles dias abriram caminho para que outra vítima, uma ex-assessora de Buzzi no STJ, procurasse as autoridades para denunciar a rotina de abusos e de terror vivida por ela no gabinete, entre 2023 e 2025.
As revelações da jovem e da ex-assessora resultaram na abertura de diferentes processos contra o ministro. Ele é alvo de uma apuração no STJ, de um procedimento no CNJ e de um inquérito criminal aberto por ordem do ministro Nunes Marques no STF. Buzzi nega as acusações.
Na próxima semana, um desses processos terá um capítulo decisivo no STJ. Os ministros do tribunal vão se reunir para analisar o relatório da investigação interna conduzida pelos ministros Francisco Falcão, Antonio Carlos Ferreira e Raul Araújo. A tendência é de que todos os integrantes do tribunal votem pela abertura de um processo disciplinar que levará à aposentadoria compulsória de Buzzi da magistratura.
O Radar teve acesso a parte dos relatos colhidos pela investigação, que será apresentada aos ministros do STJ na próxima terça-feira, 14.
Em 9 de fevereiro, cinco dias depois de ler a primeira denúncia em VEJA, uma ex-assessora de Buzzi prestou um longo depoimento ao CNJ sobre violações praticadas pelo magistrado. Participaram da audiência o advogado da vítima, Matteus Macedo, o representante do Ministério Público, José Calou, e a juíza Cláudia Catafesta.
No longo e doloroso relato, gravado em vídeo, a ex-assessora descreveu como o ministro criava diferentes situações para ficar sozinho com ela, se aproximar de seu corpo e molestar suas partes íntimas. Há ainda situações de assédio moral, com gritos, xingamentos e ameaças, convites para encontros secretos e atos desrespeitosos.
A seguir, o Radar lista cada um dos relatos da ex-assessora que teve sua identidade preservada:
“A mão dele passou sobre o meu bumbum”
“Quando aconteceu a primeira situação, eu realmente custei a acreditar que estava acontecendo, justamente por eu estar num ambiente (um gabinete de ministro do STJ) que não era para isso estar acontecendo.
Lá no gabinete, eu sou a primeira a chegar. Eu sou a que abre o gabinete, a partir das 8h. De 8h até 10h, eu fico esse período sozinha. A maioria das vezes que isso aconteceu, foi no período em que eu estava sozinha com ele no gabinete, durante essas duas horas.
O primeiro acontecido, o ministro chegou, eu estava sozinha no gabinete, ele me chamou até a sala dele e relatou que gostaria de organizar a biblioteca dele, porque há muito tempo estavam desorganizados os livros.
E, me mostrando os livros nas estantes, começou a indicar um, outro, falando sobre… Após ele colocar de volta o livro na estante, a mão dele passou sobre o meu bumbum. Eu rapidamente já me esquivei, achando que foi um contato acidental.
Coloquei na minha cabeça que foi um contato acidental, mas, lá no fundo, eu já senti que não era. A gente, que é mulher, sabe que não era uma coisa que deveria estar acontecendo de forma acidental. Fingi que nada aconteceu, trabalhei o dia normal”.
“Ele já estava atrás de mim colocando a mão no meu peito”
“Logo depois, do primeiro pro segundo episódio, não demorou muito. No segundo acontecimento, eu já tive absoluta certeza que ele estava fazendo isso (assediando) de forma proposital.
Mais uma vez eu estava sozinha no gabinete, ele chegou e me chamou até a sala dele. Ele alegou que estava ouvindo barulhos vindos da dispensa do gabinete. A sala dele tem um quartinho que a gente usa como dispensa, para poder guardar algumas coisas.
Ele até me questionou se poderia ser um rato. Eu falei assim: ‘o pessoal da limpeza faz limpeza mensalmente aqui na dispensa, e o pessoal da dedetização sempre tem o cuidado de colocar um produtinho, mas eu posso pedir para o pessoal tirar tudo para a gente se certificar’.
Nisso, ele pediu para eu ir até a dispensa e olhar o que a gente guardava lá. Aí eu fui e quando eu fui abrir as portas do armário ele já estava atrás de mim colocando a mão no meu peito.
Eu tentei agir de uma forma que me tirasse daquela situação, porque era um espaço muito pequeno e que não dava para ter duas pessoas ao mesmo tempo. Aí, eu tive certeza que a primeira vez que aconteceu já não era de forma acidental (era assédio)”.
“Estapeou minha bunda com força… Me senti violada como um animal”
“No terceiro episódio, ele me chamou para ir até a sala da assessoria, aquele corredor que a gente tem (no meio do gabinete). Na assessoria, a maioria dos assessores, nessa época, chegava na parte da tarde. Ele sempre faz um comentariozinho ou outro, uma brincadeirinha, uma fala de forma gentil.
Na hora de voltar, retornar para a secretaria, ele pediu: ‘pode ir na frente’. Eu fui e ele literalmente estapeou minha bunda com força.
Eu só saí correndo, acelerando o passo, na frente. Foi o dia que eu mais me senti violada como um animal, que eu me desesperei e vi que eu precisava de ajuda”.
“Precisei usar das minhas duas mãos para tentar conter ele”
“Ele pediu para que eu o ajudasse a conectar um pen drive no computador dele. Só que lá no gabinete dele, a mesa é assim, em L, e eu não tenho como conectar o pen drive por trás da mesa, porque o conector fica mais na frente do computador. Então, automaticamente, eu tinha que chegar perto da cadeira dele pra poder conectar.
Então, eu que já vinha sofrendo isso, já entrava na sala dele engessada, porque a qualquer momento eu sabia que isso podia acontecer. Só que o ministro não tinha o costume de fazer isso recorrentemente, ele fazia isso hoje, ele ia fazer a próxima vez daqui a quatro meses. Com exceção lá no início, no primeiro fato, porque não teve pouco espaço de tempo.
E aí eu fui até o ao lado da cadeira dele, cuidadosamente, para tentar colocar o pen drive e não deu certo. O computador estava rejeitando o pen drive.
Eu, já de imediato, para não ficar perto dele, porque toda a minha ação era tentar ficar o mais longe possível, falei que iria chamar o pessoal da informática, mas ele não aceitou. Ele falou: ‘não, não, espera, vamos tentar de novo’. E na segunda tentativa, deu certo.
Ele agradeceu por eu ter conseguido colocar o pen drive e conectar, só que aí ele se aproveitou para passar a mão de novo na minha bunda, só que dessa vez ele apertou e eu, com essa mão, segurei a mão dele.
Só que ele fez força e eu precisei usar das minhas duas mãos para tentar conter ele e a gente ficou: ele fazia força, ao contrário, e eu ia fazer a força pra tirar a mão dele.
E quando ele percebeu, naquele momento, o que estava acontecendo, que a gente estava fazendo força um contra o outro, ele começou a me pedir ‘desculpa, desculpa, desculpa, desculpa pela brincadeira’. E eu: ‘ministro, isso não é uma brincadeira’”.
“Ele falou que eu tinha um atributo diferente das mulheres do Sul”
“Teve um dia que ele pediu para que eu regulasse o ar-condicionado da sala dele. O regulador fica na parede, de frente para a mesa dele.
Eu fui regular o ar-condicionado e, quando eu me virei, ele falou que eu tinha um atributo diferente das mulheres do Sul, que ‘o meu bumbum não era grande’ e que isso chamava muita atenção de mim”.
A mulher de calcinha no telefone celular do ministro
“O motorista dele avisou que ele estava subindo ao gabinete. Eu estava mais uma vez sozinha. Ele pediu para que eu ficasse com o celular dele para participar de um evento. Eu peguei o celular dele, voltei para minha mesa, coloquei em cima da bandejinha.
Enquanto ele terminou, saiu desse evento, ele ligou no meu ramal, já tinha mais gente no gabinete, ligou no meu ramal e solicitou o celular dele de volta. Eu fui e entreguei para ele. E assim que ele desbloqueou o celular, ele perguntou pra mim: ‘É você que está falando com essa moça bonita?’ E apontou o celular pra mim, e quando eu fui olhar, era uma mulher, só de calcinha, expondo o bumbum. E aí a única coisa que eu consegui falar é, não senhor, licença, com licença, sair da sala dele”.
Convite para encontro secreto no gabinete
“O ministro, por duas vezes, em momentos distintos, questionou se eu poderia comparecer aos sábados no gabinete para auxiliar a organizar a biblioteca.
Em uma dessas vezes, ele falou que inclusive disponibilizava motorista para ir buscar na residência e que ninguém poderia saber que eu iria ao gabinete aos sábados
Não acabou acontecendo porque eu de forma alguma iria. Eu só não tocava no assunto e deixava cair no esquecimento e ele não tocou mais no assunto”.
“A senhora é uma burra”
“O ministro, ele foi acionado na Justiça Trabalhista, por conta de uma cuidadora que cuidava da mãe dele, não é isso? E ele, o irmão dele é o Melo. E, no dia dessa audiência, os advogados dele iriam se reunir para discutir o caso um pouco antes da audiência. E aí ele não foi informado pela assessoria dessa audiência nem pelos advogados — até porque, em tese, não era para o ministro participar dessa reunião.
Então, ele chegou bem cedo ao gabinete porque a reunião era de manhã cedo e ele já queria estar com tudo preparado. E aí ele ficou muito bravo porque ninguém avisou ele. E aí ele pediu para eu chamar um rapaz da informática para auxiliar ele a abrir a sala de audiência, essas coisas.
E aí quando o rapaz da informática chegou, eu fui até a sala dele para comunicar que o rapaz tinha chegado. E ele estava ao telefone gritando com a Andrea (chefe de gabinete). E aí eu esperei assim atrás da porta até ele desligar o telefone, mas foi o tempo suficiente para ele já levantar da mesa dele para me chamar de incompetente, me chamar de burra: ‘A senhora é uma incompetente, a senhora é uma burra. Eu sou um ministro muito bonzinho, mas para eu te dar um pé na bunda é daqui para ali. E pega as suas tralhas e vai embora do meu gabinete que a senhora tá demitida’.
Eu saí da sala dele”.
