Entrevista: “Eu tinha crises de choro”, diz Clebya Aparecida, vítima de etarismo

Entrevista: “Eu tinha crises de choro”, diz Clebya Aparecida, vítima de etarismo

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Foi em um escritório de Goiânia, que a assistente-financeira Clebya Aparecida de Oliveira passou por uma das experiências mais difíceis da vida dela. Entre abril e outubro de 2024, sofreu etarismo no trabalho, mas não se resignou ao lugar de vítima quando passou a ser continuamente chamada de “véia” pela chefe e pelos colegas. Entrou com uma ação na Justiça e ganhou a causa. Abaixo, ela conta com detalhes o ocorrido.   

Quando começaram os episódios de etarismo?Logo que fui contratada, uma colega que já trabalhava ali, começou a fazer perguntas sobre a minha vida. Perguntou um monte de coisa, onde eu morava, se era casada, e qual a minha idade. Quando disse que tinha 41 anos. Ela repondeu na hora: “você é véia”. E passou a me chamar de “véia”. Eu pedia para parar, mas ela continuava. Era o tempo todo, durante as oito horas de trabalho. No grupo do WhatsApp, chegavam a destacar a palavra “véia” nas mensagens.

E a gestão, como reagia?A gerente reforçava esse comportamento. Dizia, na frente de todos, que sempre orientava o dono a não contratar pessoas mais velhas – e olhava para mim. 

Houve algum episódio que marcou o início dessa escalada?Sim. Um dia, tropecei na escada do prédio e machuquei o dedo. Quando cheguei, a colega comentou: “Por isso que não se deve contratar gente véia”. A partir daí, qualquer coisa que eu reclamasse — dor de cabeça, cansaço — virava motivo para comentários pejorativos.

Você era excluída pelos colegas?Sim. Elas combinavam de sair para almoçar e não me chamavam. Depois, eu mesma preferi me afastar. Tinha crises de choro, não comia e não dormia direito. Procurei um psiquiatra para me ajudar a lidar com esse trem todo. Tudo em mim parecia errado. Sempre usei roupas adequadas ao ambiente de trabalho, ia de salto, maquiada e com cabelo escovado. Ainda assim, a chefe criticava até minha aparência. Mandava eu passar batom.

Foi um período muito duro?O pior da minha vida. Fiquei muito abalada emocionalmente. Afetou até a minha memória. Hoje, fico mal só de passar na porta do prédio do escritório.

Você fazia o quê no escritório? Comecei na área tributária e depois fui para o financeiro de duas empresas específicas. Fiquei responsável por elas e fui me desenvolvendo, porque sou muito proativa. Eu não tenho formação formal. Mas, mesmo assim, muitas vezes ensino coisas para pessoas que têm. Aprendi tudo na prática, com profissionais muito bons ao longo da minha trajetória.

Você sempre trabalhou nessa área? Sempre na área administrativa, com impostos, RH, contabilidade e cobranças.Conheço meus direitos. Apesar de não ser formada, aprendi na prática. Leio muito.

Você arrumou outro emprego? Sim, estou em escritório, onde todos me respeitam e me chamam pelo meu nome de batismo. Além de tudo, sou valorizada pelo meu trabalho na empresa. Não gosto nem de me lembrar o que passei.

Você superou? Sim, mas quando tenho que passar na frente do prédio, onde era o antigo escritório, eu ainda me sinto mal.

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