Livro de jornalista goiana sobre acidente com Césio-137 vira top 1 na Amazon, após série
O livro “Sobreviventes do Césio 137”, da jornalista Carla Lacerda, chegou ao top 1 no ranking de mais vendidos da Amazon, na categoria livro-reportagem, nesta semana. A obra, cuja última edição foi atualizada e ampliada em 2018, foi impulsionada pelo sucesso da minissérie Emergência Radioativa, da Netflix, que acompanha o caso trágico de 1987.
A primeira edição do livro foi lançada em 2007, 20 anos após o acidente. Esta obra questiona os dados oficiais da época e posteriores. Carla decidiu aprofundar a investigação sobre o tema ao se deparar com inconsistências do relatório elaborado pelo Governo do Estado, amenizando danos do maior desastre radiológico urbano já ocorrido no Planeta Terra. “O livro levanta esta denúncia em manifesto contra o apagamento desta história que se iniciou em 1987 e ainda não acabou.” O foco da obra não descarta o relato dos profissionais que atuaram no período, mas foca nas vítimas.
Quando iniciou o projeto, Carla era repórter do diário O Hoje e produzia reportagens especiais sobre os 20 anos do acidente radiológico em Goiânia. A segunda edição, possível por financiamento coletivo cerca de dez anos depois, contou com a contribuição do colega de profissão, Yago Sales. Já o prefácio foi escrito pelo premiado jornalista e documentarista Vinicius Sassine.
Ao Mais Goiás, a autora do livro diz que escrever sobre tragédias é delicado, pois é difícil não se envolver, sobretudo quando há empatia. “Por isso, tentei dar o tom mais humano, saber o que as vítimas lembravam do acidente e como estavam vivendo naquele momento.”
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Repercussão
Para Carla, a repercussão que vem com a série é fantástica, pois a tragédia não pode ser esquecida. “Faz parte da história de Goiânia e de Goiás. E percebemos que as pessoas mais novas não têm conhecimento sobre o acidente, enquanto as gerações mais antigas talvez não queiram falar, devido ao preconceito. Não só com as vítimas, mas também com o povo goiano”, ressalta.
Sobre o impacto no livro, ela diz que ficou surpresa. “Eu entrei no site da Amazon, na última segunda-feira, e vi que estava como mais vendido na categoria jornalismo.” Vale citar que a obra permaneceu nessa posição até sexta-feira (27). Neste sábado, ela já estava na segunda colocação.
Para ela, é muito importante esse assunto estar no centro do debate. “E fico feliz por participar desse processo como jornalista e por ter preservado a história das vítimas, e feito um trabalho ancorado no jornalismo, com responsabilidade, pois as vítimas confiaram a mim esses relatos.”
Importância do tema em evidência
A jornalista também comentou a aprovação do reajuste das pensões para as vítimas do acidente radioativo na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), nesta semana. O texto foi proposto pelo Governo de Goiás e passou na quinta-feira (26).
“Essas pensões não eram reajustadas há anos. As vítimas foram divididas em três grupos, dependendo do nível de radiação. Algumas estavam recebendo menos de um salário. Então, a retomada desse debate permite que a sociedade saiba como estão as vítimas e fiscalize toda essa situação, além de acompanhar se elas têm acesso aos medicamos.”
A autora também espera que essa discussão leva à realização de um sonho das vítimas, que é a construção de um memorial do Césio em Goiânia. “São quase 40 anos e Goiânia não tem nenhum referência a essa história. É natural que um povo preserve sua memória mesmo que seja uma tragédia. As vítimas que conversaram comigo relataram esse sonho”, destacou. “Um memorial que já foi prometido por políticos, mas nenhum colocou a mão na massa.”
Saiba mais sobre o livro “Sobreviventes do Césio 137” AQUI.
Série
Sobre a série, a produção acompanha a corrida contra o tempo iniciada após a abertura de um aparelho de radioterapia abandonado em um ferro-velho, uma vez que o objeto espalhou o material radioativo (o tal “pozinho azul que brilha”) pela cidade. A contaminação atingiu milhares de pessoas e deixou marcas profundas na história do país. Este foi o maior acidente radiológico do mundo fora de usinas nucleares.
Protagonista da produção, o ator Johnny Massaro afirma que não conhecia o caso. Ele nasceu em 1992, cinco anos após o acidente. “Quando fui fazer o teste, li a sinopse e achei que era ficção. Pensei: ‘Nossa, que história criativa’. Só depois me disseram que aquilo tinha acontecido de verdade”, lembra. “Foi um choque. E quando descobri, pensei: agora que eu quero contar essa história mesmo”, disse ao F5, da Folha de S.Paulo.
Ele diz ter percebido que muitas outras pessoas não conheciam o acidente. “E é um evento enorme. Foi o maior acidente radiológico da história.” Johnny vive o personagem Márcio, um dos profissionais envolvidos na tentativa de conter os efeitos da contaminação. Na trama, ele também precisa lidar com a vida pessoal (a gravidez da esposa) durante os acontecimentos.
“Ele tem diante de si o amor da vida dele esperando um filho, e de repente precisa decidir entre ficar com a família ou agir diante de algo que pode afetar muita gente”, detalha e emenda: “Ele entende que talvez seja a única pessoa ali capaz de fazer alguma coisa. Então tenta equilibrar os pratos. Não é que ele abandone a família, mas ele precisa agir.”
Segundo o ator, “quando você entende a dimensão da tragédia, percebe que não foi só sobre doença ou morte. Casas tiveram que ser demolidas, roupas e objetos destruídos, memórias inteiras apagadas. As pessoas perderam parte da própria história.”
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Tragédia
Em 13 de setembro de 1987, Goiânia foi palco do maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, envolvendo o Césio-137. O episódio teve início quando dois catadores de recicláveis, Roberto dos Santos e Wagner Mota Pereira, encontraram um aparelho de radioterapia abandonado no Instituto Goiano de Radioterapia.
Ao desmontá-lo, liberaram uma cápsula de Césio-137, um isótopo radioativo altamente perigoso. O material se espalhou rapidamente, contaminando centenas de pessoas e causando mortes e sequelas irreparáveis.
Uma parte da peça foi levada para o ferro-velho de Devair Ferreira, que abriu a cápsula e encontrou o pó radioativo. Devair mostrou a novidade para vizinhos, amigos e familiares. Dias depois, as pessoas começaram a ter tontura, vômitos e diarreia, principalmente Devair e sua esposa Maria Gabriela.
Ivo Ferreira, irmão de Devair, levou um pouco do pó para a sua filha, Leide das Neves, de apenas 6 anos. A menina posteriormente foi jantar, ingerindo o Césio-137 por meio da refeição. Ela não sobreviveu. Maria Gabriela levou a peça até a Vigilância Sanitária, contribuindo com a contaminação de mais pessoas, pois o trajeto foi feito de ônibus.
O alerta e a contaminação generalizada
Apenas em 29 de setembro de 1987 foi dado o alerta que todas essas áreas foram atingidas por radiação. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) pediu para que os moradores fossem transferidos para um esquema de triagem no Estádio Olímpico. Mais de 112 mil pessoas foram colocadas em quarentena e submetidas a intensos banhos para descontaminação.
O acidente resultou em quatro mortes confirmadas: Maria Gabriela Ferreira, Leide das Neves Ferreira, Israel Baptista dos Santos e Admilson Alves de Souza. Além disso, 249 pessoas apresentaram contaminação significativa, sendo monitoradas e tratadas por equipes médicas especializadas. Mais de 110 mil pessoas foram acompanhadas. Centenas de locais, incluindo residências, ruas e veículos, foram desinfectados ou removidos devido à contaminação. A cidade de Goiânia enfrentou um processo complexo de descontaminação, com a remoção de solo e materiais contaminados.
