No aniversário de 50 anos do golpe, Milei volta a relativizar ditadura na Argentina
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Na data que marca os 50 anos do golpe de 1976 na Argentina, em meio a uma profusão de marchas para lembrar os horrores da ditadura, o governo de Javier Milei lançou, nesta terça-feira, 24, um documentário em que defende a visão de “memória completa” daquele período, com relatos que misturam vítimas dos militares com as de grupos guerrilheiros da época.
A Casa Rosada, que vem sustentando que os anos de chumbo constituíram uma guerra na qual excessos foram cometidos por ambos os lados, pintando uma época de confronto com organizações armadas e equiparando o Estado militar aos grupos que o combatiam, divulgou um vídeo de uma hora e quinze minutos de duração chamado chamado “As Vítimas que Queriam Esconder”.
O documentário fala em uma suposta “visão enviesada e revanchista” com a qual a história tem sido estudada, que teria sido usada como um “instrumento de manipulação” por parte da esquerda. Diz ainda que as novas gerações precisam entender esses eventos “sem ideologias ou censura”.

Desde que Milei chegou ao poder em 2023, seu governo argumenta que muitas vítimas de ações estatais e grupos guerrilheiros não foram reconhecidas porque suas histórias não se encaixavam na narrativa oficial dos governos peronistas, sobretudo do casal Nestor e Cristina Kirchner. A Casa Rosada argumenta que a esquerda no país distorceu a história do período, considerando apenas os crimes de Estado, mas ignorando a violência dos grupos guerrilheiros.
Uma das histórias que aparece no novo documentário é a de Miriam Fernández, uma neta recuperada que compartilha a descoberta de suas raízes. Mas ela afirma que não se considera uma vítima e destaca que sua infância foi feliz, compartilhando que, após saber da verdade sobre sua adoção, não quis mais discutir o assunto, escolhendo se identificar com a família que a acolheu.
Há também o depoimento do filho de um ex-oficial militar argentino que foi sequestrado em 1974 pelo Exército Revolucionário Popular (ERP), uma das organizações guerrilheiras ativas na Argentina na década de 1970.
Protestos tomam o país
O vídeo foi divulgado antes de uma manifestação nesta tarde na praça de Maio, que começou a encher com pessoas levando cartazes. “Não nos venceram”, diziam alguns. Balões brancos subiam para o céu levando fotos dos desaparecidos com a legenda, “Ainda estamos te procurando”.
Sob o lema “Nunca Mais”, que marcou gerações, grupos de defesa dos direitos humanos, sindicatos e organizações sociais se reuniram lá e em todo o país com fotos dos desaparecidos, estimados em 30 mil por organismos de direitos humanos (o governo Milei fala em apenas 9 mil vítimas). As Mães e Avós da Praça de Maio lideravam a marcha em Buenos Aires, dando continuidade a uma tradição iniciada durante a ditadura, quando começaram a se reunir para exigir informações sobre o paradeiro de seus filhos e netos.

O golpe cívico-militar de 1976 derrubou Isabel Perón e instaurou uma ditadura que governou até 1983, levando a desaparecimentos, torturas, sequestro de bebês, além de forçar milhares de pessoas a partirem para o exílio. Cinquenta anos depois, 1.208 pessoas foram condenadas em mais de 350 julgamentos; no entanto, mais de 300 casos permanecem em aberto. As Avós da Praça de Maio restituíram a identidade de 140 netos sequestrados ainda bebês ou que nasceram em cativeiro; e estima-se em mais de 300 os que ainda precisam ser encontrados.
O revisionismo de Milei revela que “algo do pacto democrático se quebrou com este governo”, disse à AFP o cientista político Iván Schuliaquer, da Universidade Nacional de San Martín. No entanto, segundo ele, “a condenação à ditadura, ao plano sistemático de perseguição, tortura e desaparecimento ainda se mantém forte na maior parte da população argentina”.
Um estudo recente da Universidade de Buenos Aires (UBA) e do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS) com 1.136 entrevistados em todo o país revelou que sete em cada dez argentinos condenam a ditadura militar.
