O alimento que surgiu no Irã, foi dominado pelos EUA e caiu nas graças dos brasileiros

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Soa a uma daquelas curiosidades ou ironias históricas, que só perdem o sabor porque os países em questão estão travando uma guerra – e o apetite encolhe ao ouvir notícias tristes como a morte de inocentes. Mas o pistache, essa oleaginosa verdinha que tomou conta das sobremesas e das gôndolas brasileiras, percorreu um itinerário que vai do Irã aos Estados Unidos, ganhando o mundo em larga escala.
Sim, estudos apontam que o homem domesticou e começou a plantar a espécie Pistacia vera há coisa de 9 000 anos. Onde? Em um território do Oriente Médio que já foi chamado Pérsia e, desde os anos 1930, é conhecido como Irã.
A planta, de sementes saborosas e nutritivas, começou a se expandir da Ásia em direção ao Mediterrâneo, conquistando especialmente a região fronteiriça entre a Turquia e a Síria. Por que ali? Porque, a exemplo do Irã, é uma área com o clima e a altitude ideais para o pistache crescer e amadurecer: verões quentes e secos seguidos de invernos rigorosos.
Até hoje Irã, Turquia e Síria estão no topo dos maiores produtores dessa oleaginosa, mas, nos últimos anos, uma nova potência no cultivo surgiu – e bem longe dali. Quem? Os Estados Unidos da América.
Algumas zonas mais áridas norte-americanas, com destaque para a Califórnia, apresentam condições propícias para obter safras em nível comercial. Os agricultores dos EUA se uniram, então, em associações como a American Pistachio Growers e pisaram fundo, apostando também em tecnologia. E hoje eles são os maiores produtores do planeta.
No ranking global do pistache, os americanos estão à frente, com 500 000 toneladas por ano. Isso representa 42% da produção global.
Em segundo lugar, vem a Turquia, com 385 000 toneladas, e em terceiro, a terra natal do alimento, o Irã, com 225 000 toneladas por ano. A Síria vem na quarta posição, tendo perdido parte de sua pujança em função de outra guerra, a civil, que devastou o país.
Em quinto aparece a União Europeia, sendo que ali o cultivo se concentra em nações como a Grécia e a Espanha.
O pistache no Brasil
Nos últimos anos, a oleaginosa ganhou mesas, supermercados e lares por aqui. Só que nosso país não produz pistache. Então tem que importar. Hoje, 70% desse conteúdo vem dos Estados Unidos – tempos atrás, o Irã era o maior fornecedor.
Se em 2022 o Brasil importava pouco mais de 350 toneladas da oleaginosa por ano, em 2024 essa cifra triplicou. No ano passado, por sua vez, as importações cresceram mais 34%. Sim, o alimento caiu na graça dos brasileiros.
Os produtores americanos estão de olho nisso, a ponto de a American Pistachio Growers inaugurar uma representação em solo nacional. Com sabor agradável e versatilidade para as receitas, caseiras ou industriais, o alimento tem tudo para manter a demanda em alta.
Pistache faz bem?
Nutricionistas dizem que ele é um bom exemplo de alimento com alta densidade nutricional. Isso significa que entrega um conteúdo de qualidade em pequenas porções.
A oleaginosa é uma baita fonte de proteína – são cerca de 20 gramas em uma porção de 100 gramas – e reduto de fibras. Oferece gorduras insaturadas, bem-vindas ao coração, aquelas mesmas que fazem a fama do azeite de oliva. E ainda é uma das únicas reservas vegetais de vitamina B6, cara ao sistema nervoso.
Um ou dois punhados por dia seriam suficientes para tirar proveito dos benefícios sem correr o risco de engordar. Porque o pistache tem lá sua cota de calorias: são 180 em uma porção de 30 gramas.
Pelo bem da saúde, o ideal é priorizar as versões mais naturais ou minimamente processadas. Caso do pistache torrado, de preferência sem sal. Até porque tem produto no mercado que leva apenas “sabor pistache”, mal oferecendo o alimento.
Quando descascar a semente, lembre-se de que ela viajou o mundo antes de chegar às suas mãos – uma viagem histórica envolvendo os protagonistas do mais novo conflito geopolítico global.
