Desafios on-line colocam crianças e adolescentes em perigo

Desafios on-line colocam crianças e adolescentes em perigo

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Os “desafios” – propostas de atividades na internet que se tornam virais e levam crianças e adolescentes a realizarem ações de risco para ganhar visibilidade – não são uma novidade. Mas esses “jogos” perigosos, como do Desodorante, do Superman, do Desmaio e da Tarja Preta, para citar só alguns, têm se espalhado em uma velocidade assustadora, colocando especialistas em alerta.

“A grande questão hoje é o que a gente chama de caminho do risco”, diz a psicóloga Fabiana Vasconcelos, responsável pelo desenvolvimento das metodologias e livros do Instituto DimiCuida, em entrevista à coluna. Há pouco mais de dez anos, quando o instituto foi criado, esses desafios eram considerados práticas isoladas, copiadas de um youtuber qualquer que o adolescente seguia, por exemplo. Hoje, segundo ela, essas supostas brincadeiras vêm de grupos, passados por links em redes sociais. Do link, o adolescente é encaminhado para um grupo privado, em que esses jogos e desafios perigosos são compartilhados e ofertados como “diversão”.

Em nome de curtidas e visualizações, são propostos absurdos como ingestão de grandes quantidades de medicamentos, inalação de aerossóis, sufocamento e automutilação. Numa das tragédias mais recentes, uma menina de 8 anos morreu após inalar desodorante.

Um dos mais novos viral challenge é o Desafio do Paracetamol, que foi destaque há poucas semanas em matéria do jornal espanhol El Pais, por conta da internação de várias crianças entre 11 e 14 anos com intoxicação no Hospital Materno-Infantil de Málaga. Pediatras franceses, espanhóis, portugueses e brasileiros, como Daniel Becker, têm alertado para o perigo do desafio, que constitui um risco sério para a saúde e, segundo a psicóloga Fabiana Vasconcelos, já chegou ao Brasil.

O paracetamol é um medicamento analgésico que, quando bem recomendado, é seguro. Em altas doses, no entanto, pode ser tóxico e causar não só vômitos e dores abdominais, mas também lesões hepáticas graves e até a morte.

De 2014 a 2025, ao menos 61 crianças e adolescentes com idades entre 7 e 18 anos morreram no Brasil em decorrência de desafios compartilhados nas redes sociais. Os dados são do Instituto DimiCuida e se baseiam em casos noticiados na imprensa ou notificados por famílias que procuram organizações da sociedade civil dedicadas à temática. Segundo o Ministério da Saúde, não há dados oficiais específicos de mortes e internações decorrentes dessas práticas no país.

“Perdemos o Dimitri, aos 16 anos, para um desafio da internet, o jogo do desmaio. Até acontecer esse acidente, a gente nem sabia que existia. Além do luto da perda de um filho, tem o choque de uma prática desconhecida dentro da sua casa, no quarto ali colado com o seu”, conta à coluna Demétrio Jereissati, idealizador do Instituto DimiCuida, organização que se tornou uma referência nessa área trabalhando a prevenção de jogos e brincadeiras perigosas e a educação para a participação segura no mundo digital.

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SINAIS DE PERIGO

“Infelizmente, isso pode acontecer com qualquer família. A gente tenta construir cenários de exclusão que não existem”, diz Jereissati.

Alguns sinais, no entanto, podem ajudar pais, familiares e mesmo educadores a identificar a prática desses jogos e desafios perigosos. Segundo Fabiana Vasconcelos, os mais comuns são isolamento, uso de roupas que cubram o corpo todo, para esconder manchas e outras marcas, dores de cabeça violentas e irritabilidade frequente. “Esses sinais podem ser outras coisas, claro, mas é importante incluir o desafio entre as possibilidades”, diz a psicóloga. Na área de Biblioteca do instituto, há uma série de materiais sobre isso para download gratuito.

“Hoje, o maior perigo que as crianças correm em termos de suas saúde física, mental, emocional está na internet”, avalia o pediatra Daniel Becker, em entrevista à coluna. Segundo ele, os riscos estão especialmente nas redes sociais, nos jogos que são abertos com chat, nas plataformas do tipo Discord, nos aplicativos de mensagens como WhatsApp, Telegram e, mais recentemente, também nos aplicativos de inteligência artificial.

“Crianças e adolescentes não têm o cérebro ainda maduro. Funções executivas, como pensamento crítico e capacidade de análise, só amadurecem realmente depois dos 20 anos”, alerta o pediatra. Segundo ele, o que as plataformas fazem é jogar com a capacidade de viciar e com a susceptibilidade de crianças e adolescentes.

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Para o especialista, o ideal é que adolescentes com menos de 14 anos não tenham acesso ao celular e que só os com mais de 16 anos acessem as redes sociais. Caso isso não aconteça, os pais/responsáveis têm que supervisionar o seu uso, colocando aplicativos de controle parental, ou mesmo fazendo acordos e “contratos”.

No Brasil, segundo estudo publicado pelo Comitê Científico do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), no final do ano passado, 44% das crianças de até 2 anos já estão on-line.

Em 2024, cerca de 24,5 milhões de pessoas de 9 a 17 anos eram usuárias de internet no país (93%), segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil. Um uso praticamente generalizado que afeta especialmente as crianças e os adolescentes mais vulneráveis, que, de acordo com o pediatra, precisam de mais proteção ainda, pois, entre outras coisas, têm menos oportunidades de lazer e pais com menos acesso à educação.

INICIATIVAS DE PREVENÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS

A proibição do celular na escola, salvo fins estritamente pedagógicos ou didáticos, foi, segundo Daniel Becker, uma conquista importante na prevenção. Outra vitória é o ECA Digital, que entra em vigor no dia 17 de março, e estabelece, entre outras coisas, a retirada imediata de conteúdo inadequado, a facilitação do controle parental por meio de mecanismos nos próprios aplicativos e a verificação etária.

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Além de leis como essas, há muita coisa sendo feita e também muito por fazer nesse campo. No Ceará, por exemplo, há uma semana de conscientização e mobilização contra as brincadeiras perigosas como parte do programa Previne. Uma iniciativa que, segundo Fabiana Vasconcelos, do Instituto DimiCuida, já vem sendo copiada em outros lugares.

Para Demétrio Jereissati, o ideal seria que houvesse uma orientação e uma ação sustentável e permanente do Ministério da Educação nesse sentido. “A escola tem um papel fundamental”, diz ele, que defende também um trabalho educativo para os pais.

Outra iniciativa que poderia ser replicada, segundo Vasconcelos, é um treinamento do Samu para identificação desses casos, como foi feito em São José dos Campos (SP), em parceria com o Instituto DimiCuida, na época da pandemia de Covid-19. “Treinamos todo o pessoal do Samu e eles conseguiram fazer um levantamento oficial da situação lá. De 418 casos de intoxicação, 18% eram resultantes de desafios feitos por adolescentes entre 13 e 17 anos”, conta a psicóloga. “Somente por meio de dados vamos conseguir criar políticas públicas reais”, avalia ela.

Para o pediatra Daniel Becker, é necessário uma política pública mais ampla, como a manutenção e a criação de espaços recreativos de qualidade nas cidades, para prevenir e enfrentar os malefícios provocados pelas telas. “É um investimento de baixo custo que precisa ser distribuído de forma justa na cidade”, diz ele. “Não adianta colocar parquinho bacana, praças lindas e ruas arborizadas apenas nas partes ricas”, critica.

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Segundo a psicóloga Fabiana Vasconcelos, um canal de denúncia, por meio do qual as famílias pudessem notificar o acesso a esses desafios, espaços de apoio, acolhimento e tratamento para crianças, adolescentes e suas famílias e campanhas massivas de prevenção, com informação e sinais que ajudem na identificação do risco desses jogos e desafios perigosos também são fundamentais para que casos como o de Dimitri e de outras dezenas de crianças e adolescentes não se repitam nunca mais.

Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.

 

 

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