Cão surdo surpreende pela capacidade de entender sinais

A cena do cachorro surdo que responde com euforia ao gesto de “passear” reacendeu uma pergunta antiga da ciência: até que ponto os animais podem aprender linguagem humana? O vídeo de Oreo, que ultrapassou 8 milhões de visualizações no TikTok, mostra mais do que adestramento. Ele revela a capacidade de um cão de associar sinais visuais a significados — um processo cognitivo que envolve memória, associação simbólica e leitura de pistas sociais.
Historicamente, os experimentos mais emblemáticos ocorreram com primatas. A chimpanzé Washoe foi a primeira a aprender a Língua Americana de Sinais (ASL) nos anos 1960, chegando a dominar cerca de 250 sinais. Depois dela, o bonobo Kanzi demonstrou compreender centenas de símbolos lexigramas e instruções faladas. Esses estudos sugerem que grandes primatas possuem habilidades simbólicas mais próximas das humanas, especialmente na combinação de sinais e na compreensão de estruturas simples.
Mas os cães vêm surpreendendo a comunidade científica. Pesquisas da Eötvös Loránd University, na Hungria, identificaram um grupo raro chamado de “cães aprendizes de palavras” (gifted word learners), capazes de memorizar o nome de dezenas — em alguns casos, centenas — de objetos. Um dos casos mais conhecidos é o border collie Chaser, que reconhecia mais de mil palavras. Estudos publicados na revista Current Biology indicam que esses animais conseguem formar representações mentais estáveis associadas a comandos verbais.
A diferença central é que, enquanto primatas demonstram maior potencial para linguagem simbólica complexa, os cães evoluíram para uma leitura sofisticada de gestos humanos. Eles respondem a apontamentos, expressões faciais e variações de tom com precisão superior à de lobos socializados, segundo pesquisas comparativas.
No caso de Oreo, não se trata de domínio linguístico formal, mas de cognição social avançada: ele associa um gesto visual consistente a uma experiência positiva recorrente. A linguagem, nesse contexto, é menos sobre gramática e mais sobre vínculo. E é justamente essa capacidade de interpretar o humano — moldada por milhares de anos de domesticação — que explica por que os cães, embora não combinem sinais como os primatas, continuam a surpreender pela inteligência relacional.
