Ayahuasca psicodélica tem potencial como terapia para depressão
Via O Globo – Um novo estudo descobriu que a dimetiltriptamina (DMT), um dos componentes psicoativos tradicionalmente usados no ritual psicodélico amazônico da ayahuasca, pode ser uma terapia promissora para a depressão.
A pesquisa foi realizada com dezessete participantes que receberam uma injeção de um composto DMT desenvolvido pela Small Pharma — (agora Cybin UK) que patrocinou e projetou o estudo — e outros dezessete receberam placebo. Todos os participantes receberam acompanhamento psicoterapêutico.
Os resultados foram publicados na revista Nature neste mês e mostraram que, apenas duas semanas após a injeção, os participantes que receberam DMT apresentaram uma redução maior nos sintomas depressivos do que aqueles que receberam placebo.
Tommaso Barba, candidato a doutorado no Imperial College London e um dos autores do estudo, alertou que a pesquisa é pequena e preliminar. “Ainda há muito a fazer, mas é promissor”, disse Barba.
Na ayahuasca tradicional, os participantes bebem um chá feito de plantas com componentes psicodélicos, além de enzimas que retardam a metabolização desses componentes pelo organismo e frequentemente induzem náuseas e vômitos. A formulação sintética de DMT usada no estudo, por outro lado, produz uma experiência psicodélica curta, porém intensa, de 30 minutos, que não induz vômitos.
A terapia assistida por psicodélicos é semelhante à ayahuasca, pois envolve um facilitador que guia os participantes pela experiência psicodélica com a intenção de ajudá-los a processar e curar suas experiências. No entanto, na ayahuasca, esse apoio se dá por meio de rituais e cânticos, enquanto em ensaios clínicos como este, ele é guiado pela psicoterapia contemporânea.
Em 2019, a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA aprovou o Spravato, um spray nasal à base de cetamina para o tratamento da depressão resistente ao tratamento – o primeiro tratamento para depressão com uso de psicodélicos a receber aprovação da FDA. Ensaios clínicos com outras substâncias, incluindo psilocibina (o componente psicoativo dos “cogumelos mágicos”) e 3,4-metilenodioximetanfetamina (MDMA), também estão em andamento. A FDA recusou-se a aprovar a terapia assistida por MDMA para o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) devido a preocupações éticas e à confiabilidade dos dados.
Apesar de promissor, os pesquisadores afirmam que ainda existem obstáculos a serem considerados quando se trata de terapia psicodélica. Embora essa terapia com DMT possa ser mais rápida do que outras terapias psicodélicas, ela ainda precisa ser administrada em uma clínica, por injeção e com um terapeuta. Isso pode não ser tão desejável para muitos pacientes quanto comprar um comprimido na farmácia.
Borba ainda reitera que nem todas as pessoas querem passar por uma experiência psicodélica intensa e provavelmente desconfortável.
O pesquisador ainda afirmou que a terapia não é, e nem deve ser usada, como único remédio contra a depressão, mas sim como um trabalho com terapeuta e da capacidade de tomar decisões difíceis ao longo do tempo.
“Por exemplo, se a DMT ajudar um paciente a perceber que seu trabalho está contribuindo para sua depressão, ele provavelmente teria que realmente pedir demissão desse emprego para ver uma melhora real”, diz.
