Já brindou champanhe com Doritos? Vale a pena, garante especialista

Já brindou champanhe com Doritos? Vale a pena, garante especialista

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Nos corredores da Officina Grandi Riparazioni, uma antiga fábrica de trens em Turim, onde foi realizado no final de janeiro o Grandi Langue, evento que reuniu 515 produtores de vinho de todo o Piemonte, uma presença não passava despercebida. A americana Julia Coney, jornalista, ativista e incansável promotora da diversidade no mundo do vinho, circulava com a mesma naturalidade com que propõe desarmar o discurso sisudo da enologia. Sorridente e afiada, quando perguntei a ela o que havia achado de mais interessante entre mais de 3000 rótulos apresentados no evento, ela repondeu: “Alguns vinhos se destacaram, sim, mas o que me chamou atenção foram as pessoas com quem foi divertido conversar”. Assim, Julia deu o tom da maneira que trabalha: aproximando o vinho da vida como ela é. Sem liturgia, sem confrarias pretensiosas, sem a necessidade de um cordeiro cozido por 12 horas para justificar a abertura de uma garrafa numa sexta-feira à noite.

Texana de Louisiana, ela passa boa parte do ano entre salas de embarque ou degustando vinhos a 36 000 pés de altitude. Consultora de vinhos da American Airlines e fundadora da plataforma Black Wine Professionals — criada para ampliar a diversidade no setor —, Julia é uma voz firme contra o esnobismo que ainda afasta tanta gente das taças. “Ficou curioso? Faça perguntas”, recomenda. “Se a loja não for gentil quando você, vá embora e procure outra. O vinho é para todos.”

Julia tem dois mantras: curiosidade e praticidade. Esqueça receitas de mise en place para ocasiões inexistentes — ela é fã das harmonizações do dia a dia, aqueles tipos de combinações que realmente podem acontecer numa sexta-feira depois de um  pedido de comida pelo aplicativo do celular. No Grandi Langue, enquanto eu estava encantada com um Arneis, um branco do Piemonte (que em breve falarei por aqui), e os produtores discutiam se a melhor harmonização seria queijo de ovelha ou de massa mole de leite de vaca, Julia apareceu com uma solução muito mais simples: “Para mim, asinha de frango na brasa temperada com lemon peppper é a harmonização perfeita para esse vinho”. A colunista aqui ficou com água na boca.

Julia é uma apaixonada por borbulhas e nem toda pompa das mais importantes casas da Champanhe tiram seu humor característico. Sugestões lúdicas e certeiras dela no capítulo espumantes: que tal colocar a luxuosa combinação de caviar Kaluga e crème fraîche (levemente ácido) sobre um nacho enquanto degusta um champanhe brut? Para bons hambúrgueres completos, com bacon e afins, borbulhas rosé são as escolhidas. Para aqueles salgadinhos apimentados que mancham os dedos, ela sugere um demi-sec. “Sim, o doce do espumante e o apimentado do petisco podem ser amigos na taça”, garante.

Ela conta que em suas viagens teve oportunidade de provar poucos e bons espumante brasileiros. “São absolutamente deliciosos. Tenho muita vontade de visitar a região para conhecer mais e, quem sabe, encontrar o Daniel Geisse, da Cava Geisse. Os vinhos de lá são excepcionais”, me disse sobre a premiada casa de Pinto Bandeira, no Rio Grande do Sul.

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Julia Coney lembra que o melhor do vinho é seu poder social: unir gente, desafiar rituais e, sobretudo, fazer a vida cotidiana mais gostosa. Portanto, pegue suas asinhas, abra uma garrafa (ou duas) e brinde — sem cerimônia e com curiosidade. Abaixo, algumas das sugestões que ela preparou para AL VINO dentro da proposta “fun paring”, ou harmonizações divertidas. Elas podem também ser  chamadas de reais ou possíveis, para quem não abre mão de uma boa taça de vinho.

Frango com lemon pepper (ou aquelas asinhas perfeitas de churrasco de final de semana): Arneis — fresco, cítrico e com corpo suficiente para encarar o tempero, sem técnica de chef envolvida.

Pizza de mussarela (a tal da sexta-feira): Lambrusco ou um Grüner Veltliner espumante (uva austríaca) — leve, com fruta e energia para acompanhar queijo derretido é a companhia certa.

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Churrasco brasileiríssimo que vai das 11h às 18h: pense em bolhas vivas — um rosé espumante ou um Cerasuolo (rosé de Montepulciano de médio corpo) para cortar gordura e seguir o dia inteiro.

Para comemorar uma boa notícia, no dia que só tem amendoim em casa: um espumante Blanc de Noir ou um Albariño — vinhos com acidez que festejam mesmo com petiscos tímidos.

Batata chips (o desafio supremo): se não for muito salgada, um espumante brut com mais Pinot Noir; se for extremamente salgada, um brut nature ou um Chardonnay dominante para limpar o paladar.

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Sanduíche simples de presunto, queijo e tomate: Chablis — mineralidade e salinidade que levantam o lanche.

Massa ao sugo (e muito parmesão ralado): Pinot Noir do Vale de Willamette (Oregon) — acidez e fruta que conversam com tomate e queijo.

Durante turbulência a bordo: todo vinho disponível! Brincadeira à parte, prefira vinhos com boa acidez; a altitude altera percepções gustativas e a acidez salva.

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