Altamente confidencial: o que Andrew disse a Epstein para ser detido

Altamente confidencial: o que Andrew disse a Epstein para ser detido

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Durante dez anos, de 2001 a 2011, o ex-príncipe Andrew correu o mundo como emissário comercial. Levava na equipe um valete com uma tábua de tamanho especial para passar suas calças. Seria apenas mais uma manifestação dos privilégios excepcionais de que desfrutava. Mas, por trás do esnobismo, estava um sentimento compartilhado por plebeus e nobres: a ganância. Andrew foi detido ontem no bojo da investigação de informações sigilosas que compartilhou com Jeffrey Epstein, num desvio de função que, segundo seu irmão, o rei Charles, deverá permitir à justiça “seguir seu curso”.

O que disse Andrew ao milionário americano, abusador condenado de menores?

As mensagens constam dos mais de três milhões de arquivos, entre e-mails, fotos e vídeos, divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que estão deixando um rastro de demissões, desmoralização e até falência de famosos em todo o mundo, de Bill Clinton a Bill Gates, de Noam Chomsky a Steve Bannon.

Epstein, com a ajuda da cúmplice, Ghislaine Maxwell, a mulher que sabe de tudo mas não abre a boca na prisão onde cumpre pena de vinte anos, criou uma formidável rede de “amigos”, homens, e algumas mulheres também, a quem oferecia favores, de viagens em seu jato particular a sexo com jovens de seu harém de adolescentes.

‘AURA E ACESSO’

Andrew se fartou com as regalias, impressionantes até para alguém vindo do privilégio máximo da realeza, que rende muito prestígio, mas comparativamente pouco dinheiro. Também quis fazer negócios, o que implica a corrupção passiva pela qual está sendo investigado – a detenção foi basicamente para que as autoridades tenham acesso aos arquivos armazenados em computadores e telefones.

Quem tomou a iniciativa foi o próprio príncipe caído, como mostram e-mails enviados a Epstein por um de seus assessores, David Sten. Num deles, propõe abrir um “pequeno escritório de gestão de investimentos” com sede em Londres e sucursal em Pequim, tendo em vista indivíduos de alta renda, “chineses, mas não exclusivamente”. A parte deles seria usar “a aura e o acesso” de Andrew. Epstein, conhecido por administrar recursos de potentados árabes e ditadores africanos, faria a gestão e “eu administro as operações do dia a dia”, propôs Stein. Uma proposta, obviamente, indecente, além de potencialmente ilegal.

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Outra foi enviada diretamente por Andrew, que se assinava “The Duke” – o duque, referência ao título que não tem mais. Abordava extensamente o projeto de investimentos na província de Helmand, no Afeganistão. “Segue anexo um relatório confidencial”, escreveu Andrew, demonstrando uma opinião generalizada, mas pouco dita em público até recentemente, de que o ex-príncipe não é exatamente brilhante.

Andrew também mandou relatórios oficiais sobre suas visitas a Singapura, Vietnã, Hong Kong e Shenzen, a província pioneira na abertura comercial da China. Detalhe: os documentos confidenciais foram mandados apenas cinco minutos depois de serem recebidos por um integrante de sua equipe.

Depois de deixar o posto de emissário comercial, ele aprofundou a relação com a China. O assessor David Stern assinou um contrato na área de equipamentos de saúde com o Ministério do Trabalho chinês, segundo revela hoje uma reportagem do Telegraph. O jornal também achou evidências de um negócio de vinte milhões de libras com empreendedores chineses na área imobiliária, recebidos por Andrew no Palácio de Buckingham. O filho da rainha, ainda viva na época, estava no bolso dos chineses, como muitos suspeitavam, mas só agora estão ousando falar.

ACIMA DO VALOR DE MERCADO

Foi o príncipe quem veio com a ideia de ser uma espécie de embaixador plenipotenciário para o comércio e ninguém teve coragem de dizer não à rainha Elizabeth, especialmente protetora com o filho predileto.

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Os funcionários diplomáticos de carreira não gostaram nada, mas Andrew se jactava de que, como príncipe e filho da rainha da Inglaterra, tinha um acesso incomparável a figurões do mundo todo e traria bons negócios para o país.

Na verdade, trouxe bons negócios para si mesmo. Por exemplo: vendeu por um valor acima do de mercado, 15 milhões de libras, a mansão de doze quartos que havia recebido de presente de casamento da mãe. O comprador foi Timur Kulibayev, bilionário do Casaquistão, e, por incrível coincidência, genro do presidente do país, que nada em dinheiro proveniente das jazidas de gás natural e visitado por Andrew. Nada estranhamente, o dinheiro veio de um fundo envolvido em corrupção.

O generoso Kulibayev pagou três milhões de libras a mais do que o preço pedido – e sete acima do valor de mercado.

O caso consolidou a reputação nada ilibada de Andrew, mas foi tratado com excessiva tolerância pela qual toda a monarquia agora está pagando um preço alto.

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INVERNO DO DESCONTENTAMENTO

A mais famosa briga entre irmãos da realeza foi consagrada por Shakespeare na peça Ricardo III. O protagonista, feio e corcunda, trama para suceder o irmão, o belo e voluntarioso rei Eduardo, espalha que seus dois filhos e sucessores são ilegítimos e termina por prender os pequenos príncipes na Torre de Londres, de onde nunca mais sairiam.

Por um breve período, Ricardo se torna rei, mas acaba morto, em 1485, na batalha desfechada por nobres inconformados, na qual diz, ao perder a montaria, uma das frases mais conhecidas da literatura, até por quem não tem intimidade com Shakespeare: “Meu reino por um cavalo”.

Andrew não tem nada da tragédia do Ricardo III. Mostrou-se um aproveitador patético, disposto a traficâncias para ficar bem com Epstein – que, por sinal, pagava as contas de sua mulher, a atualmente desaparecida Sarah Ferguson, ex-duquesa de York.

A monarquia provavelmente tem fôlego para sobreviver ao escândalo, considerado por especialistas, o maior da história da realeza, mesmo sob um golpe estrondoso como a prisão do irmão do rei. Mas é irresistível não lembrar outra expressão famosa da peça de Shakespeare, o “inverno de nosso descontentamento”. É essa sensação da opinião pública que Charles e herdeiro William precisam desativar agora, sem saber que outras bombas o caso do príncipe caído reserva. Ou será que já sabiam, mas acharam que poderiam abafar o escândalo retirando os títulos, honrarias e patentes militares honoríficas do amigão de Jeffrey Epstein?

Irão as vaias a Charles sair do pequeno grupo de militantes republicanos e se espalhar?

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