Rússia ameaça enviar Marinha para proteger petroleiros e fala em ‘pirataria ocidental’

A Rússia ameaçou mobilizar sua Marinha para proteger embarcações ligadas ao país diante da possibilidade de apreensões por governos europeus.
A declaração, feita por um alto funcionário do Kremlin, amplia o risco de retaliações contra navios sob bandeira europeia e acirra a disputa em torno da chamada “frota sombra” usada por Moscou para exportar petróleo sob sanções.
O alerta partiu de Nikolai Patrushev, ex-diretor do FSB e atual chefe do conselho marítimo russo. Em entrevista ao jornal russo Argumenty i Fakty, ele afirmou que a Marinha deve estar pronta para reagir ao que classificou como “pirataria ocidental”.
“Se a situação não puder ser resolvida pacificamente, a Marinha romperá qualquer bloqueio e atuará para eliminá-lo”, disse. Patrushev acrescentou que muitos navios navegam sob bandeiras europeias e sugeriu que a Rússia também poderia “se interessar” pelo que transportam e para onde se dirigem.
Segundo ele, qualquer tentativa de impor um bloqueio marítimo à Rússia seria ilegal à luz do direito internacional. O dirigente também contestou a base jurídica do termo “frota sombra”, utilizado pela União Europeia para designar petroleiros associados à exportação de petróleo russo fora dos mecanismos tradicionais de rastreamento e seguro.
A declaração ocorre num momento sensível. Autoridades russas e ucranianas se reúnem em Genebra em mais uma rodada de negociações mediadas pelo governo de Donald Trump, às vésperas do quarto aniversário da invasão em larga escala da Ucrânia por Moscou.
Na madrugada anterior às conversas, a Rússia realizou bombardeios em diversas regiões ucranianas. Na cidade portuária de Odessa, no sul do país, ataques danificaram a rede elétrica, deixando dezenas de milhares de pessoas sem aquecimento e água, segundo o presidente Volodymyr Zelenskyy.
O que é a “frota sombra”
O termo “frota sombra” se refere a cerca de 1.500 petroleiros antigos ou operando sob regulamentação branda e estruturas societárias opacas.
Essas embarcações seriam usadas para escoar petróleo russo para países como China e Índia, contornando restrições impostas por EUA, Reino Unido e União Europeia após a invasão da Ucrânia.
Mais de 600 navios já foram alvo de sanções por parte de Bruxelas, Londres e Washington. As medidas incluem restrições de seguro, financiamento e acesso a portos, e contribuíram para limitar parte das receitas petrolíferas do Kremlin.
Apesar da pressão política crescente, governos europeus enfrentam obstáculos jurídicos para interceptar ou confiscar fisicamente os navios em alto-mar.
Em geral, recorrem a sanções econômicas, inspeções e exigências documentais. Países ocidentais também sinalizam que embarcações sem documentação adequada podem ser tratadas como “navios sem nacionalidade”, ampliando a margem para intervenções.
No último fim de semana, o secretário de Defesa do Reino Unido, John Healey, discutiu com colegas europeus, durante a Conferência de Segurança de Munique, possíveis medidas para apreender petroleiros associados à frota.
A Marinha Francesa chegou a interceptar brevemente, no início do ano, um navio suspeito de integrar o esquema, mas o liberou em seguida.
Já os Estados Unidos adotaram postura mais assertiva nos últimos meses, realizando apreensões de petroleiros ligados a redes de exportação de petróleo sob sanção da Rússia, da Venezuela e do Irã.
As declarações de Patrushev, porém, concentram-se sobretudo na Europa.
A sinalização é de que o Kremlin busca evitar um confronto direto com Washington enquanto negociações delicadas sobre a Ucrânia permanecem em curso, mas deixa claro que poderá reagir caso a pressão sobre sua “frota sombra” avance para bloqueios ou apreensões sistemáticas em águas internacionais.
