A região do Rio que virou epicentro da guerra por território entre Comando Vermelho e milícias

Criada oficialmente em setembro do ano passado, a Zona Sudoeste do Rio abrange uma extensa área estratégica para o poder público. Com 20 bairros e 1,2 milhão de habitantes, a região – agora descolada da Zona Oeste “raiz” – é responsável por uma arrecadação de R$ 3,1 bilhão, contando ISS e IPTU, e vive um boom do mercado imobiliário, com destaque para o bairro Barra Olímpica (também recente), e do setor de entretenimento. Além de já abrigar grandes casas de espetáculos, a Zona Sudoeste recberá o projeto Imagine, que envolve R$ 2,7 bilhões de investimentos no Parque do Legado Olímpico, na Barra: trata-se de um parque temático e complexo de lazer, esporte, cultura e negócios, o maior do tipo da América Latina, que ainda se tornará o palco de vez do Rock in Rio.
A região é uma potência econômica na cidade, mas seus moradores convivem com um problema crônico do Rio: a violência. A nova Sudoeste inclui os bairros mais valorizados da antiga Zona Oeste, como Barra, Recreio e Jacarepaguá, e também comunidades que há anos passaram a ser exploradas por milicianos e hoje estão na mira do Comando Vermelho. As guerras por território impõem medo em Rio das Pedras, Muzema, Gardência Azul e em outras favelas menores da chamada Grande Jacarepaguá e ainda espalham apreensão por todo o entorno. Como mostrou VEJA, em 2025, foi registrada uma média de ao menos dois tiroteios por mês nas três maiores comunidades, que resultaram em dezenove mortes, de acordo com levantamento do Instituto Fogo Cruzado. Na Zona Sudoeste em geral, a conta chega a 121 mortes violentas de janeiro a novembro do ano passado. O clima de insegurança é sentido na Barra da Tijuca e no Recreio, que em um ano viram um aumento de 22% em tiroteios – foram 38 no ano passado, como afirma a ONG.
Barricadas e pagamento de taxas ao crime
O salto no número de mortes nos dois bairros causadas por essas ocorrências é ainda maior: em 2024, foram sete vítimas fatais, enquanto 27 pessoas morreram no mesmo contexto em 2025, um aumento de 285%. “Com uma presença mais forte das facções e milícias, cria-se um clima de tensão na região. As disputas acontecem onde isso não era visto, como na areia da Praia do Recreio”, sublinha o coordenador do instituto, Carlos Nhanga. Dentro das comunidades, moradores são reféns das barricadas e das cobranças por milicianos ou traficantes de taxas como de internet e de botijão de gás. Até para estacionar em vagas nas ruas há preço. Só o mercado imobiliário ilegal na região teria movimentado cerca de 10 bilhões de reais em 2025, quase tudo passando pelas mãos do CV, segundo a área de inteligência da Secretaria estadual de Segurança Pública. A Zona Sudoeste virou prioritária para a expansão da facção, que não tem mais como crescer nos complexos da Penha e do Alemão, onde matém seu QG. O alvo ficou claro nas investigações da megaoperação Conteção nos dois conjuntos de favelas da Zona Norte. Hoje, o grupo criminoso faz investidas sobre Rio das Pedras – laboratório da exploração territorial pela milícia – e domina a Muzema e a Gardênia.
Essas três comunidades estão situadas próximas a vias expressas e em área de interesse dos três entes: a região é cercada pelas florestas dos parques nacional da Tijuca, de administração federal, e da Pedra Branca, estadual, e por lagoas, que integram o projeto de um novo sistema de transporte público aquaviário lançado pela prefeitura. Combater o crime organizado da região virou crucial para o estado, que entregou no fim do ano passado ao Supremo Tribunal Federal (STF), dentro da ADPF 635, um amplo plano de retomada de territórios conflagrados que foca nas três grandes favelas da Zona Sudoeste. Ele prevê a presença do poder público não só com agentes armados: é preciso oferecer serviços básicos como educação, infraestrutura e assistência social.
O Rio já teve modelos de ocupação fracassados, como o das UPPs. Mas o novo programa, que deve começar a sair do papel ainda neste trimestre, traz esperança. “Diferente das experiências anteriores, que partiram inteiramente do executivo estadual, essa iniciativa vem de cima para baixo. Hoje temos um comando da mais alta Corte que precisa ser executado, sob pena de eventuais penalidades”, ressalta o coordenador do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Rio, Marcos Paulo Dutra dos Santos. Embora apoie o projeto, ele demonstrou junto ao STF preocupação com a possibilidade de uma entrada truculenta da polícia. Secretário de Segurança, Victor Santos alerta: “Se a gente não retomar essas áreas há o risco de perder todos os outros bairros da região”. A expectativa da população é que, desta vez, haja uma ocupação permanente e não só mais uma operação pontual.
