Direita dividida na Colômbia: esquerda favorita na eleição presidencial

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Alguém imaginaria que eleitores colombianos cogitariam votar num presidente de esquerda depois de terem colocado Gustavo Petro na presidência, propiciando momentos em que o chefe de estado parece possuído por alguma entidade obsessora, tamanha a quantidade de bobagens que fala? Pois é exatamente o que está acontecendo com a candidatura de Iván Cepeda, um esquerdista raiz que passou muitos anos em países do antigo bloco soviético e cujo pai, um líder comunista, foi assassinado por um grupo paramilitar.
Cepeda tem um perfil diferente do exótico Petro, que voltou mais calmo do encontro com Donald Trump em Washington – e mais disposto também a mostrar serviço em relação ao combate ao narcotráfico, área em que praticamente havia cedido o controle aos bandidos.
Mas a maior vantagem de Cepeda, atualmente com 32% das preferências no primeiro turno e quase 40% no segundo, é a divisão da direita. Vindo daquela zona que passou a produzir candidatos inesperados da direita populista, surgiu o advogado Abelardo de la Espriella, que faz um estilo visual parecido com o de Nayib Bukele, com um toque ideológico de Javier Mielei. Com defesa de valores tradicionais, mão dura no combate ao crime e diminuição do estado, ele aparece com quase 15% dos votos no primeiro turno e parece ainda ter espaço para subir sob o signo do tigre, o símbolo de sua campanha.
A direita tradicional, liderada por Álvaro Uribe, aparece com apenas 7% das preferências. A candidata do Centro Democrático, como é chamado o partido de direita, é a senadora Paloma Valencia, uma força da natureza no embate ideológico com Petro, mas com desempenho fraco até agora. Outros candidatos menores dividem mais ainda os votos.
IMAGEM DESASTROSA
As preferências por Cepeda contrariam a opinião da maioria dos colombianos sobre Petro. Numa pesquisa feita pela CB Consultoria Opinión Pública no fim de ano sobre a popularidade de líderes sul-americanos, o colombiano aparecia em nono lugar, atrás apenas de Nicolás Maduro, que estava a poucos dias de ser abduzido para prestar contas à justiça americana.
Petro tem imagem ruim ou muito ruim para 64% dos colombianos, um verdadeiro desastre (outros resultados: o mais bem colocado, Javier Milei, tem 48% de imagem positiva; o boliviano Rodrigo Paz, 47,6%; Lula da Silva, 47,1%).
Cepeda é candidato pela mesma coalizão de esquerda de Petro, o Pacto Histórico. Tornou-se conhecido como líder do movimento de vítimas de forças de segurança durante os períodos mais sombrios dos embates com a guerrilha de esquerda.
A revista Cambio publicou uma análise que foca nas vantagens que ele tira pela fragmentação dos adversários e da possibilidade, até recentemente impossível, de uma candidatura forte de centro: “A dispersão da centro-direita, da direita e da extrema direita parece abrir uma oportunidade ao centro para competir pelo segundo turno e não se resignar a um terceiro lugar”.
O primeiro turno é em 31 de maio e Iván Cepeda só tem que torcer para que Gustavo Petro não diga alguma loucura que o prejudique. São baixas as probabilidades de que isso aconteça.
‘INESQUECÍVEL’ NA CAMA
Num dos mais alucinados discursos da história política da humanidade, no fim do mês passado, ele fez várias referências a sexo durante a cerimônia de reabertura de um hospital. Falou inclusive que “médicos e enfermeiras fizeram amor nos arbustos” da instalação médica antes de sua reforma. Elogiou a si mesmo como “inesquecível” na cama e culminou com a insistência de que Jesus deve ter se relacionado com Maria Madalena.
Diante de tantas barbaridades, passou quase em branco outra declaração alucinada: “Os jovens pobres de Bogotá roubam celulares para dá-los às suas namoradas, porque as namoradas vivem viciadas na televisão e no mercado”.
Se alguém achava que nada podia ser pior do que roubar celular para tomar uma cervejinha, está aí a prova de que Gustavo Petro sempre dá o melhor de si para superar a concorrência.
O senador Iván Cepeda, que estudou filosofia na Bulgária, terá ainda muitas oportunidades de praticar o estoicismo enquanto tenta ganhar uma eleição com Gustavo Petro jogando contra e enfrentar uma novidade como Abelardo de la Espriella, com potencial para bagunçar sua campanha no primeiro turno – e sabe-se lá o que acontecerá no segundo.
