“Sou gay”, “Fui ingênua” entre desculpas absurdas do círculo de Epstein

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Eu não vi nada, sou gay”. Assim, com extraordinário cinismo, Peter Mandelson tentou justificar que não havia reparado nas dezenas e dezenas de adolescentes que permanentemente se revezavam para atender às demandas sexuais de Jeffrey Epstein. Ele teria que ser gay e burro, o exato oposto do atilado operador político britânico, apelidado de “Príncipe das Trevas” por ser especialista em manipular informações em várias de suas funções em governos trabalhistas.
Mandelson resistiu o quanto pôde, mas não deu para sobreviver a duas coisas: foto de cueca – tirada no apartamento de Epstein em Paris, ao lado de uma jovem de roupão – e as revelações sobre informações confidenciais que passava a Epstein quando estava no governo, o que poderia ser o equivalente a nada menos que espionagem. Ele e o marido, o brasileiro Reinaldo Ávila da Silva, também receberam dinheiro do milionário abusador de menores, conforme relataram em e-mails agora revelados entre a massa de três milhões de arquivos liberados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
As conexões de Epstein com figuras importantes da Inglaterra já levaram o rei Charles a cassar todos os títulos, honrarias, patentes militares e até o palacete do próprio irmão, agora o ex-príncipe Andrew, também ex-duque de York. De origem mais plebeia, Peter Mandelson teve de renunciar ao título de lorde, conquistado por serviços prestados a diversos governos trabalhistas. Já havia sido obrigado a pedir demissão como embaixador do Reino Unido, um posto ao qual foi imprudentemente nomeado pelo atual primeiro-ministro, Keir Starmer, mesmo quando seu envolvimento com Epstein já era conhecido, embora sem os detalhes constrangedores agora revelados.
Mesmo exilado dentro do próprio país, Andrew não teve o caso encerrado. São repugnantes as fotos em que aparece de quatro, no chão da sala de jantar da mansão de Epstein em Nova York, encenando algum tipo de perversidade sexual com uma jovem deitada diante dele. Como não existe mais espaço para ser rebaixado, a próxima etapa pode ser perante a lei.
O CASO DA PRINCESA DA NORUEGA
As novas mensagens reveladas entre o ex-príncipe e Epstein mostram um envolvimento profundo – dele e da ex-mulher, Sarah Ferguson, que proclamava ver no milionário abusador “o irmão que queria ter tido” e pedia dinheiro na maior cara-de-pau. “Preciso pagar hoje vinte mil libras de aluguel. Alguma ideia?”, escreveu ela a Epstein. Num ato que só pode ser considerado alucinado, ela levou as duas filhas, as princesas Beatrice e Eugenie, para visitar Epstein apenas cinco dias depois que ele terminou a pena de prisão por induzir uma menor a se prostituir.
Epstein gostava de ter figuras ligadas à realeza no seu círculo de relacionamentos, usando-os como escada para influenciar milionários e famosos que queria atrair para sua teia. Além de Andrew e Sarah, ele construiu uma “amizade” com a mulher do futuro rei da Noruega, a princesa Mette-Marit.
“Você sempre me faz sorrir, porque atiça meu cérebro”, derrete-se ela num e-mail. Em outros, diz que “Paris é boa para adultério” e discute que fotos de mulheres nuas daria ao filho de quinze anos – agora, ele está em julgamento por estupro e atos de violência contra quatro ex-namoradas.
Marius Borg Hoiby é fruto de um encontro casual da época em que Mette-Marit tinha relacionamentos sobrepostos no mundo de traficantes de drogas. Quando o príncipe herdeiro Haakon se apaixonou pela loiríssima garçonete, a família real e o resto da Noruega não ousaram levantar restrições, sob o risco de parecerem politicamente incorretos. Agora, o país vive o duplo escândalo do jovem que o príncipe herdeiro criou como filho e do envolvimento constrangedor da princesa com Epstein, sempre desfrutando de favores como suas múltiplas mansões, abertas a ela e convidados.
OPERADOR DE PUTIN?
A teia de relacionamentos tecida por Epstein e sua cúmplice, Ghislaine Maxwell, é inacreditável, despertando constantes suspeitas de que era uma operação profissional de espionagem. O fato de que o próprio pai de Ghislaine, Robert Maxwell – originalmente Ján Hoch, tendo fugido da antiga Checoslováquia para se radicar na Inglaterra -, tenha colaborado com o Mossad e, dizem, a KGB, para tirar judeus da União Soviética, contribui para as suspeitas.
Com todos os arquivos sobre o caso liberados, ainda restam dúvidas fundamentais. Como Epstein, professor de matemática do ensino médio, ficou tão rico no mercado financeiro, com fortuna de mais de 500 milhões de dólares? Como operou tão ostensivamente, mesmo depois de condenado, a sua vasta rede de exploração de meninas aliciadas para fazer massagens sexuais que ele queria receber três vezes por dia e colocadas à disposição dos amigos influentes? Para dar nó na cabeça: uma fonte não identificada do FBI diz num dos arquivos que ele operava finanças secretas de Vladimir Putin e de Robert Mugabe, ditador do Zimbábue.
Aos poucos, muito mais lentamente do que todos gostariam, alguma justiça começa a ser feita. O ex-príncipe Andrew, o agora ex-lorde Mandelson, e Larry Summers, o ex-figurão de Harvard, já perderam posições importantes. As desculpas parecem cada vez mais esfarrapadas. Carolina Lang, filha de uma personalidade conhecida da esquerda francesa, o ex-ministro da Cultura Jacques Lang, também deixou uma fundação que presidia e disse que foi “de uma ingenuidade perturbadora” por não declarar o dinheiro que recebia de Epstein num paraíso fiscal para fins de assessoria artística.
O alcance da teia do milionário abusador vai de Bill Clinton a Noam Chomsky, o conhecido intelectual de esquerda que, segundo Epstein, ligou para ele quando estava visitando o presidente Lula da Silva, então no sistema prisional. Epstein manifestou apoio a Jair Bolsonaro, provavelmente influenciado por Steve Bannon, o ex-assessor de Donald Trump que tem um papel de ideólogo da direita populista nada condizente com a proximidade comprometedora com o milionário condenado.
Epstein inventaria uma coisa dessas? Até agora, tudo que diz em seus milhares de e-mails tem sido comprovado. E muito ainda está por ser revelado. Próxima etapa: Bill e Hillary Clinton se viram obrigados a romper o silêncio e prestar depoimento à comissão da Câmara que investiga o escândalo. Estava ficando constrangedor para eles e todos aguardam as desculpas esfarrapadas que virão pela frente. O casal Clinton é altamente especializado no assunto.
Poderá a maldição de Epstein alcançá-los?
