EUA se preparam para novo ‘shutdown’ apesar de acordo entre governo Trump e democratas

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Três meses após o último “shutdown“, os Estados Unidos devem retornar à meia-noite desta sexta-feira, 30, a uma situação de paralisação orçamentária, apesar do acordo alcançado na véspera entre a Casa Branca e os democratas, que deveria evitar uma crise duradoura.
Em meio à indignação provocada pelas mortes de manifestantes contrários às operações anti-imigração ordenadas pelo presidente Donald Trump, a oposição democrata havia se recusado a aprovar um pacote de gastos composto por seis projetos de lei destinados a financiar mais de 75% do governo federal. Sua condição para passar a medida era que o financiamento do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) fosse separado da discussão e renegociado, para incluir salvaguardas sobre o ICE, a polícia migratória, que tornou-se a mais bem financiada agência de segurança pública dos Estados Unidos.
Responsável por teatrais e truculentas batidas policiais com fins de deportação por todo o país, o ICE está na berlinda pelas mortes de manifestantes em Minneapolis.
Na quinta-feira, Trump anunciou ter alcançado um compromisso com os democratas para que eles votem para aprovar cinco dos seis itens que compõem o pacote orçamentário — a parte que diz respeito ao DHS, e portanto a agência migratória, será negociada nas próximas semanas. O Senado deve submeter esse novo texto a uma votação nesta sexta, mas, como a versão é diferente da que havia sido aprovada pela Câmara dos Deputados, a proposta de lei deve retornar à outra casa legislativa, que não poderá avaliá-la até segunda-feira, 2 de fevereiro.
Assim, o governo federal voltará a entrar em um cenário de paralisação parcial à meia-noite. Ainda que dure pouco, este será o segundo “shutdown” — quando o financiamento de todo ou de diferentes áreas do governo americano é temporariamente congelado — desde que Trump retornou à presidência, em janeiro de 2025, refletindo a divisão da política americana.
“O único fator que pode atrasar nosso país é outro longo e nefasto shutdown do governo federal”, afirmou o republicano em sua rede, a Truth Social.
Indignação
O presidente da Câmara, o republicano Mike Johnson, declarou que os congressistas estudarão a nova versão assim que retornarem a Washington.
“Vamos fazer isto imediatamente”, declarou à imprensa em Washington, durante o evento de estreia do filme Melania, produzido pela primeira-dama.
Na semana passada, tudo indicava que o texto seria aprovado no Senado antes de 31 de janeiro, quando expira o prazo do orçamento temporário que foi alcançado após o shutdown no ano passado, mas os acontecimentos do último sábado passado em Minneapolis mudaram o rumo da votação.
As mortes de Renee Good e de Alex Pretti, ambos baleados por agentes federais do ICE e CPB (patrulha de fronteiras) com poucas semanas de diferença nesta cidade do norte dos Estados Unidos, provocaram grande indignação entre democratas e até republicanos.
“O que o ICE está fazendo é brutalidade sancionada pelo Estado e deve parar. E o Congresso tem a autoridade, e a obrigação moral, de agir”, disse na quinta-feira o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, antes da votação.
As paralisações congelam temporariamente o financiamento de operações federais não essenciais, obrigam as agências a suspender seus serviços e a mandar para casa ou a forçar o trabalho sem pagamento de salário de centenas de milhares de funcionários públicos.
Segundo o plano atual, departamentos responsáveis por áreas como educação, transporte, habitação, saúde e defesa podem ser afetados.
Ironicamente, a medida não impactaria tanto o próprio ICE, para o qual foi destinada uma verba de quase US$ 75 bilhões (cerca de R$ 389 bilhões) em quatro anos, por meio de uma lei promovida por Trump e assinada em 2025 que ficou conhecida como Big Beautiful Bill (“grande e bela legislação”, em tradução livre).
